Quarta-feira, Dezembro 02, 2009
este é um dos livros que me fez sair de casa ao fim da tarde, já atrasado, há quinze dias, e ir de propósito à livraria só porque o queria ter nas mãos, e nos olhos; para além de tudo o mais é uma madalena de Proust
posted by luis Quarta-feira, Dezembro 02, 2009
Segunda-feira, Novembro 30, 2009
Qual é o significado do título?
É uma referência às últimas palavras de Hamlet: "O resto é silêncio".
Há muito, muito tempo (havia quem contasse assim umas histórias na rtp 2, ao fim da tarde) comprei umas edições de música clássica em cd rom que traziam alguns dados biográficos de alguns compositores bem como alguma da História em que viveram, para rabiscar umas sebentas caseiras; nunca o fiz.
Sem ter rigorosamente nada a ver, um dia destes, muito, muito tempo depois, de repente... e se de repente...ainda que a tradução tenha muito que se lhe diga e a capa também:
"O Resto é Ruído descreve historicamente não apenas os próprios artistas, mas também os políticos, os ditadores, os mecenas milionários e os administradores de empresas que tentaram controlar a música que se escrevia; os intelectuais que tentaram impor decisões sobre o estilo; os escritores, os pintores, os dançarinos e os realizadores de cinema que os acompanharam nas estradas solitárias da exploração; as audiências que com isso se comprazeram, que insultaram ou que ignoraram o que os compositores estavam a produzir; as tecnologias que alteraram o modo como a música se fazia e ouvia; e as revoluções, as guerras quentes e as frias, as vagas de emigração e as transformações sociais mais profundas que imprimiram um novo aspecto à paisagem em que os compositores trabalhavam.
[...]
Viena, 1900
Nas suas primeiras histórias, Thomas Mann produziu diversos retratos vívidos de uma personagem paradigmática da viragem do século; o esteta apocalíptico. A história Beim Propheten (Em Casa do Profeta), escrita em 1904, começa com uma ode irónica à megalomania artística:
Que estranhas realidades existem, que estranhas mentes, que estranhos estados de espírito, nobres e disponíveis. Na periferia das grandes cidades, onde escasseiam os candeeiros de iluminação pública, e os polícias, aos pares, patrulham a pé as ruas, há casas onde se sobe até mais não ser possível e, lá em cima, se entra em lofts (1) sob os telhados onde geniozinhos pálidos assassinos do sonho, se sentam de braços cruzados e meditam; lá em cima entra-se em estúdios baratos com decorações simbólicas, onde artistas solitários e rebeldes, consumidos interiormente, esfomeados e orgulhosos, lutam por ideais radicais por entre uma névoa de fumo de cigarros. É este o objectivo, o alvo: gelo, castidade, nulidade. Aqui nenhum compromisso é válido, nenhuma concessão, nenhum meio-termo, nenhuma consideração pelos valores. Aqui o ar é tão rarefeito que já nem existem miragens de vida. Aqui reina o desafio e a consistência do aço, o supremo ego por entre o desepero; aqui reinam a liberdade, a loucura e a morte.
[...]
Paris, 1900
A certa altura, o sentido que Debussy tem de si próprio como aventureiro dos sons, um perscrutador de Fausto, dissipou-se. Em 1900 já não apelava para a constituição de uma Sociedade de Esoterismo Musical; em vez disso, louvava os valores franceses clássicos da clareza, da elegância e da graça. Andava também a ouvir atentamente a música espanhola, especialmente o canto hondo, tradição do flamenco andaluz. As suas obras mais importantes da primeira década do século --La mer, os Préludes e as Estampes para piano, e os ciclos de Images para piano e orquestra-- misturam qualidades familiares de transcedência com andamentos de dança e lirismo puro e simples. «Velas», nos Préludes, confina-se quase por completo à escala de tons inteiros. «Passos na Neve» gira em torno de repetições hipnóticas de uma figura de quatro notas. Porém, La fille aux cheveaux de lin (A Rapariga de Cabelos de Linho) tem uma melodia que apetece assobiar na rua; muitas pessoas ficariam surpreendidas ao saberem que esta peça nem sequer foi «composta». E a «Serenata Interrompida», uma cena espanhola, mistura a guitarra flamenca com escalas árabes que sugerem uma influência mourisca. Debussy não aprendeu a escrever este tipo de música em isolamento faustiano; pelo contrário, recolheu algumas pistas em noites avulsas na ópera, na opereta, em cabarés e em cafés.
Paris boémia promoveu um fácil intercâmbio do esoterismo oculto com o populismo de cabaré, principalmente porque os dois mundos se sobrepunham por vezes literalmente. A Ordre Kabbalistique de la Rose-Croix reunia-se numa sala por cima do cabaré Auberge du Clou, e enquanto a cabala debatia a sua filosofia arcana, as melodias insinuantes do café-concerto por certo emergiam no andar de cima.
Era em lugares como estes que Debussy encontrava frequentemente Erik Satie, outro revolucionário clandestino fin-de-siècle e, sob alguns aspectos, o mais destemido de todos.
(1) Palavra inglesa que, principalmente nos anos setenta do século passado, se passou a aplicar a amplos espaços sem divisórias, situados nos últimos pisos dos edifícios --por vezes armazéns transformados em apartamentos de condomínios-- e que eram geralmente , mas não só, ocupados por artistas de diversas artes. Não se trata, pois, dos vulgares sótãos. (N.do T.) "
Alex Ross (trad. Mário César d`Abreu), O Resto é Ruído, casa das letras, 2009
posted by luis Segunda-feira, Novembro 30, 2009
Quinta-feira, Novembro 26, 2009
.
posted by luis Quinta-feira, Novembro 26, 2009
Terça-feira, Novembro 24, 2009
"E comecei a aperceber-me de que a população dos quadros podia existir dentro das portas de uma cidade, a cidade sem museu, em que à entrada das casas, como habitantes, havia quadros, nesta, por exemplo, o retrato de uma mulher com um vestido azul que, no quadro, é verde, mas que no texto, à porta dessa casa, o sumo da minha memória vê como vermelho. É de Balthus, e eu gostaria de viver a escrever passeando entre imagens.
Dirijo-me a ela:
– Mulher, que não tens seios, tens vestido comprido, só cabeça, e um livro na mão. Que és magra, como o teu livro pequeno na mão esquerda, apoiada, no antebraço, pela direita.
Estás à espera de alguém?
– Não, não estou.Balthus: Portrait de femme en robe bleue
(Madame Georges Hilaire), 1935
– Por que olhas para mim, de testa franzida, e não para o livro? Por que pareces tão magrinha com uma cabeça tão grande? Por que tens uma cadeira de costas para ti?
– Não quero sentar-me. Quero olhar-te. Mas perdi a memória e, por falta dela, não sei ler o livro, que se tornou um objecto quase seco na minha mão. Se eu me sentar na cadeira _____
– Deixas de olhar para mim.
– Deixo de olhar para ti, e despregam-se-me os dois indícios de rugas que tenho na testa à direita.
– Despega-se também da tua boca a boca voluntariosa.
– Sim. Esboçaria um sorriso. E o meu corpo deixaria de estar ligeiramente inclinado para trás,
para a memória de anão que percute o meu vestido, a meu lado. O meu vestido, o meu lado, a minha memória. Não consigo deixar de olhar para ti. Porque me vês, compreendes? E quem me vê, como não estou habituada a que me vejam,
me tem.
Decido ir ao museu para vê-la mais vezes, entregar-lhe parte da minha liberdade quando a olho. Porque ela não é livre, existe, mas não tem, por exemplo, a realidade de poder deslocar-se para ir até à janela. Estará sempre ali, sufocada pelo livro que tem na mão, cada vez mais minúsculo, e não lê. E, na sua cara, morrerá o estereotipo dos olhos.
Mas, se não houvesse força reinante no quadro de Balthus, eu não teria escrito este texto, que bebi na sua imobilidade e na sua imagem.
– Abre-se-te o chão debaixo dos pés? – perguntei-lhe. – Estou quase fascinada por ti.
– Deixa-me cair no teu fascínio – disse-me. – Dá-me um alvo para olhar.
– Certamente – respondi-lhe. – Olha para teus irmãos (as outras belas coisas) e esgueira-te pela porta
que te abre o texto. Pois tu abriste-me ao primeiro impulso.
– É triste [luminoso] precisar de dinheiro para vibrar. Mas tu vibras com o menor impulso de dinheiro possível. O que é ainda mais luminoso.
Maria Gabriela Llansol
(Espólio de M. G. Llansol, Caderno 47, 1997)"
in A Phala
posted by luis Terça-feira, Novembro 24, 2009
Domingo, Novembro 22, 2009
uma exposição é mostrar... é abrir-se, dizer o que a gente tem feito;
uma carta aos amigos e aos que ainda vão chegar (1)
Assírio & Alvim: Lourdes Castro: A PRAIA FORMOSA photografias do meu avô Jacinto A. Moniz de Bettencourt;
Gulbenkian: Anos 70 - Atravessar Fronteiras;
Algés: CAMB - Centro de Arte Manuel de Brito, Palácio Anjos, Algés;
Lourdes Castro: conversa com João Fernandes, Lourdes Castro e Isabel Carlos;
1970 - TEATRO de SOMBRAS por Lourdes Castro -1970 [obrigado, P.]
Que maravilha!
(1) em «Um dia com Lourdes Castro», episódio do programa televisivo "um dia com...", arquivo RTP, Gulbenkian: Anos 70 - Atravessar Fronteiras.
posted by luis Domingo, Novembro 22, 2009
Sexta-feira, Novembro 20, 2009
«A beleza é para dar entusiasmo ao trabalho, o trabalho para ressurgir»O P. José Tolentino Mendonça, director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, será um dos convidados presentes no encontro entre Bento XVI e diversas personalidades do mundo da cultura, que ocorrerá a 21 de Novembro, no Vaticano.
De acordo com a Sala de Imprensa da Santa Sé, a escolha dos convidados deveu-se ao seu "prestígio" e "alta qualidade profissional”.
Os artistas, provenientes de todos os continentes, representam diferentes prismas do mundo das artes: pintura, escultura, arquitectura, literatura e poesia, música e canto, cinema, teatro, dança e fotografia.
O encontro realiza-se quando passam dez anos da Carta de João Paulo II aos Artistas e se assinala o 45.º aniversário do encontro de Paulo VI com o mundo da cultura, na Capela Sixtina.
"A vocação artística ao serviço da beleza
3. Um conhecido poeta polaco, Cyprian Norwid, escreveu: «A beleza é para dar entusiasmo ao trabalho, o trabalho para ressurgir».(3)
O tema da beleza é qualificante, ao falar de arte. Esse tema apareceu já, quando sublinhei o olhar de complacência que Deus lançou sobre a criação. Ao pôr em relevo que tudo o que tinha criado era bom, Deus viu também que era belo.(4) A confrontação entre o bom e o belo gera sugestivas reflexões. Em certo sentido, a beleza é a expressão visível do bem, do mesmo modo que o bem é a condição metafísica da beleza. Justamente o entenderam os Gregos, quando, fundindo os dois conceitos, cunharam uma palavra que abraça a ambos: « kalokagathía », ou seja, « beleza-bondade ». A este respeito, escreve Platão: « A força do Bem refugiou-se na natureza do Belo ».(5)
Vivendo e agindo é que o homem estabelece a sua relação com o ser, a verdade e o bem. O artista vive numa relação peculiar com a beleza. Pode-se dizer, com profunda verdade, que a beleza é a vocação a que o Criador o chamou com o dom do « talento artístico ». E também este é, certamente, um talento que, na linha da parábola evangélica dos talentos (cf. Mt 25,14-30), se deve pôr a render.
A arte face ao mistério do Verbo encarnado
5. A Lei do Antigo Testamento contém uma proibição explícita de representar Deus invisível e inexprimível através duma « estátua esculpida ou fundida » (Dt 27,15), porque Ele transcende qualquer representação material: « Eu sou Aquele que sou » (Ex 3,14). No mistério da Encarnação, porém, o Filho de Deus tornou-Se visível em carne e osso: « Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher » (Gl 4,4). Deus fez-Se homem em Jesus Cristo, que Se tornou assim « o centro de referência para se poder compreender o enigma da existência humana, do mundo criado, e mesmo de Deus ».(6)
Esta manifestação fundamental do « Deus-Mistério » apresenta-se como estímulo e desafio para os cristãos, inclusive no plano da criação artística. E gerou-se um florescimento de beleza, cuja linfa proveio precisamente daqui, do mistério da Encarnação. De facto, quando Se fez homem, o Filho de Deus introduziu na história da humanidade toda a riqueza evangélica da verdade e do bem e, através dela, pôs a descoberto também uma nova dimensão da beleza: a mensagem evangélica está completamente cheia dela.
A Sagrada Escritura tornou-se, assim, uma espécie de « dicionário imenso » (P. Claudel) e de « atlas iconográfico » (M. Chagall), onde foram beber a cultura e a arte cristã. O próprio Antigo Testamento, interpretado à luz do Novo, revelou mananciais inexauríveis de inspiração. Desde as narrações da criação, do pecado, do dilúvio, do ciclo dos Patriarcas, dos acontecimentos do êxodo, passando por tantos outros episódios e personagens da História da Salvação, o texto bíblico atiçou a imaginação de pintores, poetas, músicos, autores de teatro e de cinema. Uma figura como a de Job, só para dar um exemplo, com a problemática pungente e sempre actual da dor, continua a suscitar conjuntamente interesse filosófico, literário e artístico. E que dizer então do Novo Testamento? Desde o Nascimento ao Gólgota, da Transfiguração à Ressurreição, dos milagres aos ensinamentos de Cristo, até chegar aos acontecimentos narrados nos Actos dos Apóstolos ou previstos no Apocalipse em chave escatológica, inúmeras vezes a palavra bíblica se fez imagem, música, poesia, evocando com a linguagem da arte o mistério do « Verbo feito carne ».
Tudo isto constitui, na história da cultura, um amplo capítulo de fé e de beleza. Dele tiraram proveito sobretudo os crentes para a sua experiência de oração e de vida. Para muitos deles, em tempos de escassa alfabetização, as expressões figurativas da Bíblia constituíram mesmo um meio concreto de catequização.(7) Mas para todos, crentes ou não, as realizações artísticas inspiradas na Sagrada Escritura permanecem um reflexo do mistério insondável que abraça e habita o mundo."
posted by luis Sexta-feira, Novembro 20, 2009
Quarta-feira, Novembro 18, 2009
Finis terrae
"Se os dois últimos livros das Confissões não são livros fáceis para quem não se interesse por exegese escriturística, o mesmo não se pode dizer do Livro XI, que continua a ser estudado ainda hoje, mesmo por pessoas a quem Santo Agostinho e a história da sua conversão não interessam minimamente. É que o Livro XI consiste numa das mais profundas investigações filosóficas de sempre à natureza do tempo, e ainda não foi possível resolver de forma satisfatória o dilema que ele propõe. O contexto é a narrativa da criação, que procede a partir do nada (ex nihilo), sendo Deus, o criador, concebido como um ser eterno e imutável. Esta doutrina da eternidade e da imutabilidade de Deus é, como já vimos, uma das componentes da herança platónica de Agostinho, e assenta na seguinte justificação: se Deus fosse mutável, seria imperfeito porque a mudança pressupõe que o ser que muda seja, em determinado momento, incompleto, que seja passível de se tornar melhor (ou pior). Assim sendo, antes da criação o tempo não existe, existindo apenas este Deus imutável, cuja vontade e cuja decisão de criar são eternas, têm lugar fora do tempo; mas, ao criar o mundo, Deus cria um sistema em que, ao contrário do que acontece Nele mesmo, há sucessão temporal. Ora, o que é exactamente o tempo?
Temos o hábito de pensar que o tempo consiste no passado, no presente e no futuro. Acontece, porém, que «o passado não mais existe e o futuro ainda não existe». Já o presente, «se permanecesse sempre presente e não se tornasse passado, não seria mais tempo, mas eternidade. Portanto, se o presente, para ser tempo, deve tornar-se passado, como poderemos dizer que existe, uma vez que a sua razão de ser é a mesma pela qual deixará de existir?»
Podemos dizer que medimos o tempo pela sua passagem, pela sucessão do passado, presente e futuro. Mas isso é o mesmo que dizer que o tempo vai nascendo do que ainda não existe, passando por aquilo que não tem duração para aquilo que já não existe. Por outro lado, como podemos medir aquilo que não existe? Há quem diga que o tempo é o movimento dos corpos; mas os movimentos dos corpos são variáveis, os corpos movem-se a diferentes velocidades, o mesmo corpo umas vezes está em movimento, outras vezes está em repouso; o que acontece na realidade é que medimos o tempo em que os corpos se movem. Mas como fazê-lo, dada a natureza do passado, do presente e do futuro, e dado que nada existe efectivamente a medir, a não ser o momento presente, que está constantemente a desaparecer, que se encontra em permanente mudança? Agostinho é levado a concluir que a passagem do tempo não é objectiva, não é algo que ocorra na própria realidade. Quando falamos da passagem do tempo, estamos a referir-nos às alterações que se dão dentro de nós: à expectativa do que ainda não existe, à atenção ao que está a contecer, à memória daquilo que já passou. As coisas mudam de posição de acordo com a nossa perspectiva temporal, que é limitada, e é a isso que chamamos tempo.
Já do ponto de vista de Deus não há mudança, nem sequer na criação. Toda a criação está sempre presente a Deus. Do nosso ponto de vista, as coisas mudam, mas para Deus não mudam; nem tão-pouco há mudança no conhecimento de Deus, porque o conhecimento de Deus é, tal como o próprio Deus, imutável. Todas as coisas estão sempre presentes a Deus.
Somos levados a concluir que o tempo está relacionado com a percepção humana (embora Agostinho não apresente propriamente as coisas nestes termos). Se nós tivéssemos a percepção perfeita que Deus tem das coisas, não haveria tempo. Nesse sentido, o tempo é um artefacto subjectivo, um defeito da nossa percepção humana. As nossas noções da passagem do tempo, de um passado e de um futuro inexistentes, e de um presente que não dura -- todas essas noções são ilusórias. Curiosamente, há hoje muitos filósofos da ciência que estão de acordo com este ponto de vista; que, embora não aceitem a posição de Agostinho acerca da criação do mundo, consideram que o tempo é essencialmente subjectivo, não existindo sucessão temporal no universo, pelo menos tal como a concebemos na nossa vida corrente.
Naturalmente que Santo Agostinho como os filósofos em geral têm um problema a resolver: a relação entre o livre-arbítrio e o futuro. Com efeito..."
Anthony O`Hear (trad. Maria José Figueiredo), Os Grandes Livros, Alêtheia Editores, 2009.
"Cabe-lhe a ela o turno do meio dia (sem grande rigor). Exactidão, só com a ajuda de relógios, e relógios... Bem, o de caixa alta desapareceu: já não se ouve o martelo de cobre ao fundo do corredor; avariou-se a corda e, embora o tio quisesse consertá-la (chaves de fendas, solda, óleo, parafusos, livros folheados à pressa), veio um homem da vila, levou a caixa e o maquinismo para a carroça que esperava no pátio, e até hoje. O do pai (ponteiros luminosos, tampa e corrente de prata), sempre em cima da cómoda holandesa, foi pelo mesmo caminho. Revisão geral, no relojoeiro, há quanto tempo? Ninguém acredita."
Carlos de Oliveira, Finisterra, Assírio & Alvim, 2003.
"Se os negacionistas da história que duvidam do facto da evolução são ignorantes em relação à biologia, aqueles que pensam que o mundo começou há menos de dez mil anos são piores que ignorantes, pois a sua ilusão roça a perversidade. Negam não apenas os factos da biologia mas também os da física, geologia, cosmologia, arqueologia, história e química. Este capítulo explica-nos como as idades das rochas e dos fósseis estão incrustadas neles. Apresenta as provas de que a escala de tempo em que a vida se desenvolveu no nosso planeta é medida não em milhares de anos mas em milhares de milhões de anos.
Recordemos que os cientistas evolucionistas são como detectives que chegam demasiado tarde à cena do crime. Para descobrir o momento em que as coisas aconteceram, dependemos de vestígios deixados pelos processos dependentes do tempo --ou seja, por relógios em sentido lato. Uma das primeiras coisas que um detective faz quando investiga um homicídio é pedir a um médico ou patologista que calcule a hora do óbito. Muito depende desta informação, e nos romances policiais atribui-se uma reverência quase mística à estimativa do patologista. A «hora do óbito» é um facto basilar, em redor do qual o detective formula conjecturas mais ou menos rebuscadas. Mas esta estimativa está, como é evidente, sujeita a erro, um erro que pode ser medido e que é considerável. O patologista recorre a vários processos dependentes do tempo para calcular o momento do óbito: o corpo arrefece a uma velocidade característica, o rigor mortis ocorre numa determinada fase, etc. São estes os «relógios», relativamente imprecisos, disponíveis para o investigador de um homicídio. Os relógios ao dispor do cientista evolucionista são bem mais exactos -- em relação à escala de tempo envolvida, claro, não no sentido comum do termo! A analogia com um relógio de precisão é mais convincente para uma rocha do Jurássico nas mãos de um geólogo do que para um cadáver que arrefece nas mãos de um patologista.
Os relógios construídos pelo homem funcionam em escalas de tempo muito curtas pelos padrões da evolução --horas, minutos e segundos-- e os processos dependentes do tempo que utilizam são rápidos: o balançar de um pêndulo, a rotação do cabelo de um relógio, a oscilação de um cristal, a combustão de uma vela, o escoamento de uma vasilha de água ou de uma ampulheta, a rotação da Terra (registada por um relógio de sol). Todos os relógios exploram algum processo que acontece a uma taxa estacionária e conhecida. Um pêndulo balança a uma taxa constante, que depende do seu comprimento, mas não, pelo menos em teoria, da amplitude da oscilação ou da massa do pêndulo na extremidade. Nos relógios de caixa alta o pêndulo está ligado a um escape que acciona uma roda de coroa; a rotação desta é depois convertida no movimento dos ponteiros das horas, dos minutos e dos segundos. Os relógios de pulso com mecanismo de cabelo funcionam de maneira semelhante. Os relógios digitais exploram um equivalente electrónico do pêndulo: a oscilação de certos tipos de cristais quando recebem a energia de uma bateria. Os relógios de água e de vela são muito menos exactos, mas foram úteis antes da invenção dos relógios que contabilizam acontecimentos. Estes dependem não da contagem de coisas, como os relógios de pêndulo ou digital, mas da medição de uma grandeza. Os relógios de sol são dispositivos inexactos de medição do tempo (1). Mas a rotação da Terra que é o processo dependente do tempo em que se baseiam, é exacta na escala temporal do relógio mais lento a que chamamos calendário. Isto sucede porque nessa escala temporal já não é um relógio medidor (um relógio de sol mede o sempre cambiante ângulo do Sol), mas um relógio contabilizador (contando ciclos dia/noite).
Quer os relógios contabilizadores, quer os medidores estão disponíveis na escala temporal lentíssima da evolução. Mas para investigar a evolução não precisamos apenas de um relógio que indique o tempo presente, como o relógio de sol, nem de um relógio de pulso. Precisamos de algo parecido com um cronómetro, que possa ser reiniciado. O nosso relógio evolutivo precisa de ser calibrado em dado momento, para que possamos calcular o tempo transcorrido desde o ponto de vista inicial e obter, por exemplo, a idade absoluta de um objecto como uma rocha. Os relógios radioactivos para datar rochas ígneas (vulcânicas) são calibrados no momento em que a rocha se forma pela solidificação da lava fundida.
Felizmente, há uma série de relógios naturais nestas condições. A existência desta variedade é uma coisa boa, porque podemos usar alguns relógios para verificar a excatidão de outros. E, felizmente, eles cobrem uma gama incrivelmente vasta de escalas de tempo evolutivas estendem-se por sete ou oito ordens de grandeza. Vale a pena explicar o que isto significa.
(1) Sou um relógio de sol, e faço mal
Aquilo que um relógio de pulso faz bem
Hillaire Belloc"
Richard Dawkins (trad.Isabel Mafra), O Espectáculo da Vida A Prova da Evolução, Casa das Letras, 2009.
posted by luis Quarta-feira, Novembro 18, 2009
Segunda-feira, Novembro 16, 2009
ontologia vs ontologia, primeiro o 1 e depois o 2, e está muito bem assim
1. A vida pública primeiro,
até porque foi à porta de Woodie Goothrie dizer "I'm out here a thousand miles from my home... Hey, hey Woody Guthrie, I wrote you a song"
e depois a outra, que é como se fosse as duas mas muito mais contida para os flashes dos jornais e das tvs e dos manifestos, do portão para cá.
Os discos.
Os filmes.
Os livros.
Os programas.
A afirmação o respeito o falar sobre e o ser.
A certa altura ele pergunta a Ginsberg se já leu Em Busca do Tempo Perdido, não, e, momento culminante, olha-o de soslaio a pensar, talvez, que devia era ir lê-lo em vez de andar aí pela estrada fora. Não quis ir com eles, distanciou-se e mostrou bem porquê, mostrou-lhes.
Esteve com índios, cumprimentado como se fosse de casa.
Foi ao lado de lá das grades, atravessando a 66, ter com Hurricane e depois esteve cá fora com ele, cantando-o.
Uma das frases finais: como é que é possível o mito estar com a mulher e os filhos em casa.
Apaixonado e amando duas vidas duas mulheres duas metáforas deixou-se ficar meio deitado meio de pé.
A escolha.
Renaldo & Clara é, também, riscaria o também, sobre o onde tinha decidido ficar e o onde estaria no futuro.
2. Deus depois de distraidamente ter feito o Texas e deste ter saído assim em vez de o modificar deixou-o como estava e achou que era mais fácil fazer pessoas que gostassem dele do que o alterar. É mais ò menos uma lenda, dita por Byrne logo no início para localizar a acção, Virgil, Texas.
Byrne é uma personagem de David Lynch ao contrário e fez um filme lynchiano, também ao contrário.
True Stories é assim.
Uma maravilha, portanto.
O resto não interessa.
posted by luis Segunda-feira, Novembro 16, 2009
Sábado, Novembro 14, 2009
.
posted by luis Sábado, Novembro 14, 2009
Quinta-feira, Novembro 12, 2009
estoril
new york
bob dylan
true stories
francis ford coppola
guggenheim
lisboa
renaldo and clara
david byrne
david byrne
''If you can think of it, it exists somewhere,'' ''When I see a place for the first time, I notice everything - the color of the paper, the sky, the way people walk, doorknobs, every detail,"
The laziest woman in the world (Swoosie Kurtz), in her bedroom with its array of labor-saving gadgets, also broods on certain imponderables (''You know how hot dogs come 10 to a pack and buns in packs of 8 or 12? You have to buy 9 packs to make them match up! That's what I'm talking about!'') The lying woman (Jo Harvey Allen) claims, among other things, to have written ''Billie Jean'' and known the real Rambo, while the lonely Louis Fyne (made especially memorable by John Goodman), who keeps a ''Wife Wanted'' sign on his front lawn, is looking for love. The Culvers, Kay (Annie McEnroe) and Earl (Spalding Gray), are a proper-looking couple who communicate only by way of their children.
''I deal with stuff that's too dumb for people to have bothered to formulate opinions on.''
posted by luis Quinta-feira, Novembro 12, 2009
Quarta-feira, Novembro 11, 2009
A dada altura ela diz que vai ter de sair de Madrid durante alguns dias, com uns americanos, e leva nas mãos o livro de histórias/poemas de Tonino Guerra, num só volume.
Os segredos como tesouro e como sombras guardados deram origem a um vendaval mas não a um furacão.
posted by luis Quarta-feira, Novembro 11, 2009
Terça-feira, Novembro 10, 2009
The only complete song performed by Morrissey at Liverpool Echo Arena This Charming Man,before he was hit with a pint glass and walked off stage
1. It's Liverpool. It's perfect.
2. Goodbye.
3. ______________________________________________________________.
Reel around the fountain (of lager) ... Morrissey is struck on the head with a plastic bottle.
Photograph: Tony Woolliscroft/WireImage.com
posted by luis Terça-feira, Novembro 10, 2009
Segunda-feira, Novembro 09, 2009
posted by luis Segunda-feira, Novembro 09, 2009
Sexta-feira, Novembro 06, 2009
1. Só ainda não mandei um grande avé a Casanova porque ando a ler os seus dois últimos textos em fotocópias que me iam deixando na caixa do correio, semana a semana, até agora, e foi isso, assim, sim, pois, também.
E que dois grandes textos.
Mas antes, dizer só que não deixa de ser delicioso e irónico que aquele que coloca a fasquia da crítica e da recensão literária nos jornais e revistas portugueses na excelência não queira mostrar o rosto e assine com um pseudónimo.
Ao lado de outros que estão sempre de dedo no ar e em bicos de pés é um sopro de vida. Lobo Antunes dizia na entrevista a Lucas Coelho, de há duas semanas atrás, que a crítica devia ser outra coisa, Casanova já é essa outra coisa.
Dos textos que me meteram na caixa do correio aquele que quero destacar é o intitulado Um dos maiores etecéteras da actualidade, salvé! Avé.
a não demonstração estética, por parte do crítico, que justifica a aquisição da obra
a escassez do espaço é apontado como o principal motivo
2500 caracteres
universidade e os jornais e revistas: o crítico ideal deve tentar a síntese possível entre estes dois pólos: especulação especializada e opinião subjectiva
coerência
o talento crítico de Barthes conseguiu sobreviver à vasta imbecilidade que é o estruturalismo
evitar dizer coisas que poderiam ser ditas sobre qualquer outro livro é um bom começo
Em última instância, o talento encontra a sua própria consistência --não na insipidez militante ou na adesão fanática a uma constituição, mas na vivacidade, e na resistência ao banal
Casanova, ao contrário de outros que não tendo o seu talento mas se arvoram em talentosos e do meio e mais não fazem do que a figura de Mr. Bumble, eleva a qualidade, resiste ao banal e ao acomodamento e, ao contrário de ainda outros, não debita máximas estilo eu não me decepciono com os jornalistas porque não espero demasiado, uma vez que sei que toda aquela gente dormiu na mesma cama, teve a mesma condição.
O insuportável não é isso que diz mas o que se vê, 4 em 5.
Ainda bem que Casanova não sabe disto e não se acomoda. O esperar demasiado, expectativas, depende do onde se quer estar ou onde se está metido. O resto é conversa.
O segundo texto de Casanova, sobre o 2666, é excelente.
2. "não são segredo [os rituais maçónicos)", "Por tradição, a maçonaria não identifica os seus membros vivos, a não ser que o próprio aceite divulgar o seu nome", "uma ode à América, disse a revista Time", "organização de homens livres que se reúnem para discutir tudo", "honra e palavra", "a ignorância é o que ajuda o caos a crescer", "quem não partilha o conhecimento nunca deixará de ser medíocre", "a tolerância, o respeito pelo outro", "a maçonaria foi secreta enquanto era ilegal", depois a jornalista remata "Agora já não é.", "não são poucos, nem raros", "filantropo", jornalista: "também por lá passa a ideia de que não basta ser-se iniciado para se aceder ao conhecimento."
Estas citações são todas retiradas do texto da jornalista Isabel Coutinho (esta jornalista escreveu uma vez qualquer coisa como: quando o site da revista ler não é actualizado fico nervosa ou ansiosa) publicado no jornal público da passada sexta-feira, dia 30 de Outubro, a propósito do lançamento do último livro de aventuras de Dan Brown.
Dizer o quê sobre as citações acima expostas?
Dizer o quê sobre a existência de associações secretas, hoje, em democracia?
(Pessoas de todas as profissões e ocupações encontrarem-se em reuniões que só elas sabem onde para esquadrinharem um plano de acção, claro que filantrópico, para a sociedade onde estão inseridos e pretendem dominar? passa pela cabeça de alguém? passa.)
Todas as citações são para lá do medíocre e também contraditórias, a da liberdade dos seus membros então é de ir às lágrimas de gargalhada em gargalhada, onde podemos ir também quando se fala em aceder ao conhecimento, de filantropia e de honra e palavra, já me dói a barriga, pára.
Mas não passaria de uma risota se não fosse grave, muito grave, a existência destas e doutras associações secretas nos dia de hoje. Vou dizer devagar e depois repito: são elas as responsáveis, em grande parte, pelo atraso deste país.
Sim:
são elas as responsáveis, em grande parte, pelo atraso deste país.
São elas as mantenedoras e promotoras da mediocridade em quase todos os sectores da vida portuguesa. Nota-se isso tão bem.
Fidelio.
3. O quase jornal diário i num rosa choque cueca publicita "30 escândalos que marcaram Portugal", depois entra-se e já só são "Escândalos que marcaram a democracia", engana, mas adiante.
Quase diário e quase a passar ao lado de uma grande carreira também. Peguemos neste bom serviço de lembrar escândalos e de os dar também a conhecer e pensemos no que aconteceu em Inglaterra para aí em Maio deste ano, as notícias das escandalosas despesas pessoais com dinheiro do Estado pelos actuais e de há bem pouco tempo políticos ingleses, não me lembro já se também britânicos, não interessa.
Pergunta, aqui as perguntas são todas retóricas, ao i: queriam investigação melhor para fazer em Portugal?
4. Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii!
Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii!
Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii!
posted by luis Sexta-feira, Novembro 06, 2009
Quinta-feira, Novembro 05, 2009
luzes
fotograma de Rio Bravo, de Howard Hawks
A primeira vez que entrei numa sala de cinema foi para ver um Charlie Chaplin, e não há adjectivos, e ainda vejo algumas das sombras dessa primeira vez às vezes, amiúde.
Depois no início da adolescência um conluio entre o acaso e a sorte levou a que um dia ou uma noite tivesse ficado inocentemente a ver um filme de cowboys na televisão, filme esse que quando hoje fecho os olhos está lá, foi assim durante toda a adolescência e agora neste estado a que se chama de adulto e lhe arranjam uma definição a condizer.
Durante muito tempo não soube o nome do filme, do realizador e não entendi muito do que tinha visto; mais tarde porque estava sempre à espera de voltar lá apanhei-o de novo e soube que se chamava Rio Bravo, há lá um rosto esquivo atrás de uma daquelas casas de madeira à luz nocturna daquela luz de caravaggio que me ficou para sempre.
Ainda mais tarde soube quem era o realizador e o que pensavam sobre ele e sobre os seus filmes algumas das pessoas que aprendi a gostar de ouvir e de ler. A única coisa que pensei foi "tiveste muita sorte".
O meu primeiro cineclube foi o cineclube de guimarães, monumento nacional, que agora, para os meses de Outubro, Novembro e Dezembro, programou um ciclo de cinema intitulado "Regresso ao Velho Oeste":
Cavalgada Heróica, de John Ford; Rio Bravo, de Howard Hawks;
Os Profissionais, de Richard Brooks; O Bom, o Mau e o Vilão, de Sergio Leone;
A Quadrilha Selvagem, de Sam Peckinpah; Homem Morto, de Jim Jarmusch.
Acabo a citar João Bénard da Costa: "Na cadeia, não podendo mais com a ressaca, Dean Martin enche o copo de ´whisky`. Vai começar a bebê-lo (e ninguém interfere) quando se ouve, através das janelas, a canção índia do `No Mercy for the Loosers´. Dean Martin interrompe o movimento, pousa o copo e pede a Brennan que não feche a janela, que o deixe continuar a ouvir. A música da perdição volve-se em missa de salvação. À pena que tem de si próprio substitui-se, como em Only Angels Have Wings, a percepção fulminante que ninguém terá pena dele. Nem dos outros. Sem uma palavra (a não ser o breve pedido de Martin a Brennan), só com música, tudo está dito sobre mercy e sobre loosers."
posted by luis Quinta-feira, Novembro 05, 2009
Quarta-feira, Novembro 04, 2009
“You have a telephoto! Why do you need to be so close? It’s like a gun!”
“Did you get the press kit? It is full of information. You could even invent that you met me. Say, ‘We were in a little room. She had the light behind her because her eyes fear the light. And we had tea and coffee.’”
I should say nothing! I’m through with it! I hate to repeat myself all the time. I cannot invent totally. I cannot say something different to one person and then another. I cannot make it totally different each time, you know. I say so much in the film and so much even in the press kit! I quoted Montaigne. So I would say, can we have subsidiary questions, or side questions? Can we speak about the weather? Or the tennis that I watch in my room?
I made a braid because Chinese old people, they say that the God will take you by the hair to join you with—but God didn’t take me, so I cut the braid. Now it’s the same hairdo but it has two colors—come on! It’s different! It’s like an ice cream of chocolate and vanilla! I tried a wig. I hated myself totally white. So now I cheat. It’s my white hair, and I put color there.
I had a world. I don’t think I had a career. I made films.
When I did Cléo, I thought, I have to work with time. We feel time differently when we are suffering or are in pain or we are waiting for something. So subjective time became the subject for me—plus the duration of the time of the film that the spectator perceives. I worked with matters that are there for any artist to work with, but which I worked at with cinema.
I think I’m on the way. I have to do it the way she did. She told people, Don’t worry if I say it wrong—I’m allowed to do so. My sister was suffering from it. She said, It’s terrible—she gives us the names of her brothers and sister! I said, But she’s free, let her enjoy that—and I laughed. And I teach my children, who were there, laugh! I mean, she does nothing wrong. She’s liberated from truth, in a way, from being right.
An old woman I loved very much when I was young—the wife of Jean Villard—she’s just reciting poetry all the time, which is beautiful because it means she went back to the world of poetry that she loved when she was young. That’s all she does—she almost doesn’t recognize her children, but she recites Valéry and Baudelaire. So what? We’re the ones who are suffering. She’s not.
Well, Picasso really changed my life. It’s strange to say so, but I started to see some Picasso paintings very early. I was very young, and he was not so much known. The first exhibition was organized by the communist party, can you believe this?—because of his position during the war and all that. But the freedom he gave himself to work and change shape and change ideas and work all the time with joy—you know, the joy of painting was in Picasso, which I found beautiful.
You understand, I was eighteen, this was back in ’46, so we also had these very frightening images of soldiers in the streets of Paris. So the effect of war, plus my shyness, plus my lack of education—I was afraid of men, really. It changes later, but it took me a certain time to adjust, yes.
People are four years older and they know much more than you, and they’re both very bright, and Renais told me a lot of things. In the editing he told me I should maybe see films: You know there is a Cinémathèque in Paris? And he said to me when the editing was done, he said, There’s Visconti. I said, Who’s Visconti? I had no knowledge at all, no knowledge of films. I’d seen few films. I knew nothing. I was interested in painting and theater at the time. Then I learned and I went to see movies.
Because to advance in society is slow, slow, and slow. To change history is very slow. The first two times I came to the States—black people didn’t have the right to vote—but we have seen them in France, American soldiers, black, and they come and save us. A lot of them died in France. They were doing the job of the American army. I come to the States and they don’t have the right to vote! Can you believe that? So, society is so slow. A feminist is a bore. [Spills tea] It’s OK, since my dress is tea-colored.
posted by luis Quarta-feira, Novembro 04, 2009
Terça-feira, Novembro 03, 2009
mais provas da existência de Deus
Aqui, aqui, este programa é um monumento, uma Capela Sistina; em formatos diferentes mas lembra-me bem o The Blues de Martin Scorsese.
Enquanto ouvia o primeiro, about the weather, li os dois primeiros capítulos de O Espectáculo da Vida A Prova da Evolução, de Richard Dawkins.
Também, desde já, o da Bíblia, é o dezanove, e ouvir John The Revelator.
Agora vou ali deliciar-me mais uma horita com o Espectáculo da Vida, título inspirado no slogan de uma T`shirt, de Richard Dawkins.
E que excelente título.
posted by luis Terça-feira, Novembro 03, 2009
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
"- Então acreditavas no que escreveste? --perguntou Hector a Lucien.
- Sim.
- Ah, meu caro! -- exclamou Blondet. - Julguei-te mais forte! Não, palavra de honra, ao olhar para a tua testa, dotei-te de uma omnipotência semelhante à dos grandes espíritos, todos suficientemente fortes para poderem considerar as coisas nos seus dois aspectos. Meu caro, em literatura, cada ideia tem um direito e um reverso; ninguém pode assumir a responsabilidade de afirmar qual é o reverso. Tudo é bilateral no domínio do pensamento. As ideias são binárias. Jano é o mito da crítica e o símbolo do génio. Só Deus é triangular! O que faz de Molière e Corneille duas excepções, não é a faculdade de pôr Alceste a dizer sim e Filinto, Octávio e Cina a dizer não. Rousseau, em la Nouvelle Héloïse, escreveu uma carta a favor e outra contra o duelo, serias capaz de determinar a sua verdadeira opinião? Qual de nós estaria disposto a pronunciar-se entre Clarisse e Lovelace, entre Heitor e Aquiles? Quem é o herói de Homero? qual foi a intenção de Richardson? A crítica deve contemplar as obras em todos os seus aspectos. Enfim, somos grandes relatores.
- Acredita, então no que escreve? --perguntou-lhe Vernou, trocista. - Somos vendedores de frases e vivemos deste negócio. Quando quiserem escrever uma grande e bela obra, ou seja, um livro, dêem largas ao pensamento, à alma, defendam-na, desabafem; mas artigos lidos hoje, esquecidos amanhã, não valem, para mim, o seu preço. Se atribuírem importância a tanta estupidez, então terão de fazer o sinal da cruz e de invocar o Espírito Santo antes de escreverem um prospecto!
Todos se mostraram surpreendidos por descobrir que Lucien tinha escrúpulos e acabaram de lhe esfarrapar a toga pretexta para lhe envergarem a toga viril dos jornalistas."
Honoré de Balzac (trad. Isabel St. Aubyn), Ilusões Perdidas, Publicações Dom Quixote, 2009.
posted by luis Segunda-feira, Novembro 02, 2009
Sexta-feira, Outubro 30, 2009
1. O semanário Expresso é o semanário Expresso e está tudo dito. Aqui há meia dúzia de anos ouvia-se zurzir muito no que por lá lá se escrevia, que era do piorio, isto e mais aquilo e aqueloutro, vozes ferozes, mas agora não, pois os zurzidores estão lá e os que não estão são seus amigos. No fundo, Portugal.
E foram para lá dizendo e afirmando-se diferentes. O cuspo é fodido.
Mas o semanário Expresso é o que é e a edição do fim de semana passado provou-o uma vez mais. Há alguma explicação para aquela fotografia na primeira página ser aquela a fotografia da primeira página? Diria que só no semanário Expresso. Nunca por sombra alguma deixaria aquela fotografia ser a da primeira página. Mas percebo porque não percebam isso, afinal estamos a falar do semanário Expresso. Queriam o quê, concretamente?
2. Um livro que saiu há meia dúzia de meses Joseph Ratzinger, Paolo Flores d`Arcais, Existe Deus? da editora pedra angular:
"A revista italiana MicroMega lançava um volume sobre o confronto entre Fé e Razão, com textos, entre outros, do seu Director, Paolo Flores d`Arcais, e do então Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger. Para o efeito, organizou um debate com ambos os autores, num lugar público de Roma, e sob moderação do jornalista Gad Lerner. O histórico diálogo foi seguido por mais de duas mil pessoas, dentro e fora do Teatro Quirino (muitas em plena rua, recorrendo-se a um amplificador improvisado).
Existe Deus? - Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo apresenta a transcrição desse debate, bem como dos textos de Ratzinger e Flores d`Arcais que estavam, nesse dia, a ser lançados."
Um cristão um ateu e um judeu.
Claro que em Portugal se acha e achou que não vale a pena discutir assim, as pessoas são na maioria dos casos ignorantes sem a escola primária, leia-se Pulido Valente, e por isso é perder tempo, Pacheco Pereira ajudou. Estes dois homens comentam quase tudo o que se passa e acontece, mas esta não valia a pena.
Faz-me muita confusão que intelectuais como os acabados de citar se atirem para as franjas de discussões importantes, que não se deixem contaminar, isto é muito português, e que de lá digam que não se vê nada, que não se está a passar nada, só circo. Veja-se um exemplo deste estado de coisas: um homem que tem uma das melhores profissões que hoje se pode ter, deputado no parlamento europeu, bem pago, com tempo para reflectir, viagens, etc, etc, elite, portanto, disse o que disse sobre Saramago, que devia renunciar... enfim.
Pulido Valente e Pacheco Pereira não perceberam que para lá da espuma da discussão havia uma outra discussão, e não a quiseram ter por serem portugueses, intelectuais do espaço público português.
A História diz-nos, todos os dias, que as mentalidades são aquilo que demora mais tempo a mudar, muito mais tempo.
3. O encontro entre José Saramago e José Tolentino Mendonça serviu entre muitas outras coisas para desbravar terreno; estar disponível para a discussão é muito sadio, e não se deixar prender nas suas verdades e virtudes ainda mais, discutir, discutir, ah, Grécia, Grécia.
E a conversa entre estes dois homens no semanário expresso da semana passada foi algo a que não estamos habituados, normalmente só a política da pequeninha, bastidores e nada mais.
Que se tivesse dito alto e bom som para todas as pessoas:
a Bíblia é uma obra literária e um hipertexto; porque ama a sua mulher e não outra? a fé é um paradoxo; querer tratar Deus com lógica é chegar a um beco sem saída; pode-se entender a condição humana sem o paradoxo? os cristãos são criados pela liberdade; o cristianismo é uma aventura da liberdade; Deus escolhe o mais pequeno, o último, a vítima, aquele que não tem voz nem vez; o fumo das fogueiras enche a história de todos os tempos; aqueles que pensam que são isentos do mal é que me metem medo; dentro do cristianismo há muitos cristianismos; a experiência do mal está em todas vidas; a Bíblia é um teatro de Deus; nós sabemos de Deus o que Jesus de Nazaré nos revelou; acha que a Bíblia é só isso? e chora e arrepende-se de todo o mal que fez; é preciso amar a imperfeição.
4. O blogger do complexidade e contradição, que há muito adoptou o estilo do blogger do a causa foi modificada, para quase todos os posts que vou tendo a oportunidade de quando em vez ler, imitando uma frase que maradona em tempos também assinou ou postou dizendo mais ou menos o mesmo "que [Tolentino Mendonça] é uma pessoa quase tão superior às outras...". Foi quase à letra.
Escreveu o dono do complexidade e contradição que o debate prometido pelo semanário expresso foi de vidro e que por isso estamos perdidos, que não encontrou lá nada, portanto, que valesse a pena, que para aquilo mais valia nada, nada.
Este post ou comentário ou observação ou desencanto ou decepção ou lá o que mais for, pode ser cegueira, olha, olha, fez-me lembrar um outro post em que o blogger do portugal dos pequeninos, e reparem na ironia, dirigindo-se ao do clube das repúblicas mortas, quando este disse mal da encíclica de Bento XVI, Raposo, dizia-lhe que ao padre teólogo não lia mas a si sim, a si, sim, leio.
Fez-me lembrar o casting do ídolos.
posted by luis Sexta-feira, Outubro 30, 2009
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
![]()
Dizer nada não, apenas que é brilhante e mágico; Ernst Lubitsch, The Marriage Circle a.k.a. Os perigos do Flirt, do catálogo Origens do Cinema, da Divisa. Avé.
posted by luis Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Quarta-feira, Outubro 28, 2009
.
fotograma de Casa de Lava, de Pedro Costa
Li, num destes dias, uma frase que dizia: "Le Festin de Babette de Karen Blixen fait réfléchir le philosophe sur l'état de l'art aujourd'hui, pour mieux en dénoncer les limites : une botte vaut Shakespeare, tout se vaut, tout est culture. Notre monde ne supporte plus les héritiers ni l'idée d'une classe cultivée, pourtant absolument nécessaire pour que l'art puisse vivre." (2ª parte)
"À palavra «alimento» os convidados, de cabeças curvadas sobre as mãos postas, lembraram-se de que tinham prometido nada dizer sobre tal assunto e em seus corações renovaram a promessa: nem sequer se permitiriam um pensamento! Estavam ali para jantar; pois também se reuniram para jantar os convidados das bodas de Caná. E a Graça quisera manifestar-se ali, no próprio vinho, tão completamente como noutro lugar da Terra.
O ajudante de Babette encheu um pequeno copo à frente de cada convidado. Eles levaram o copinho aos lábios, gravemente, em confirmação dos seus votos.
O General Loewnhielm, numa certa desconfiança daquele vinho, provou-o, surpreendeu-se, ergueu o copo à altura do nariz, depois à altura dos olhos, e pousou-o, confundido. «Isto é estranhíssimo!», pensou ele. «Amontillado! E o melhor amontillado que eu já bebi.» Momentos depois, como para testar os seus sentidos, provou uma colherzinha de sopa; provou segunda vez, pousou a colher. «Que coisa extraordinária!», disse para consigo. «Porque eu só posso estar a comer sopa de tartaruga. E que óptima sopa de tartaruga!» O General, tomado de estranho pânico, esvaziou o copo.
Em Berlevaag não era costume conversar-se muito à mesa. Mas nesta noite as línguas desatavam-se. Um velho Irmão contou a história do seu primeiro encontro com o Deão. Outro passou em revista o sermão de há sessenta anos que o tinha convertido. Uma velha, aquela a quem Martine confiara primeiro a sua angústia, recordou aos amigos que deveriam estar sempre prontos a aliviar os seus Irmãos e Irmãs dos sofrimentos que os atribulassem.
O General Loewnhielm, que iria dominar todas as conversas nesse jantar, contou que os sermões do Deão eram uma das leituras favoritas da rainha. Mas, quando um novo prato foi servido, calou-se. «Incrível!», disse para consigo. «São blinis Demidoff!» Olhou em volta para os convivas. Todos comiam sossegadamente os seus blinis Demidoff sem revelar qualquer surpresa, qualquer aprovação, como se os tivessem comido todos os dias daqueles trinta anos.
Uma Irmã, no outro lado da mesa, iniciou novo tema: os estranhos acontecimentos que tiveram lugar enquanto o Deão estava ainda entre os seus filhos, a que ela se iria atrever a dar o nome de milagres. Lembravam-se de um certo Natal, perguntou ela, em que o Deão prometera fazer um sermão na aldeia do outro lado do fiorde? Durante quinze dias o tempo esteve tão mau que nem o capitão nem pescador se arriscaram a fazer a travessia. Os aldeões já perdiam a esperança, mas o Deão dissera que, se não houvesse barco para o levar, ele os visitaria caminhando sobre as águas. E, milagre!, três dias antes do Natal a tempestade amainou, veio uma forte geada, e o fiorde gelou de uma à outra margem --e isto foi coisa que não havia memória na região!
O rapaz voltou a encher os copos. Desta vez os Irmãos e Irmãs perceberam que não era vinho o que se lhes dava a beber, porque borbulhava. Devia ser uma espécie de limonada. A limonada estava em harmonia com a exultação de todos e parecia erguê-los a regiões mais altas e mais puras.
O General Loewnhielm pousou o copo, voltou-se para os eu vizinho da direita e disse:
- Mas isto é um Veuve Cliquot de 1860.
O vizinho olhou-o com bonomia, sorriu e respondeu com uma qualquer observação sobre o tempo que fazia.
O ajudante de Babette tinha as suas ordens; servia a Congregação penas uma vez, mas ao General enchia-lhe o copo assim que estivesse vazio. O General esvaziava o seu copo repetidamente. Pois como há-de um homem de juízo comportar-se quando não pode confiar nos seu sentidos? Antes embriagado que louco.
Era frequente os homens e mulheres de Berlevaag sentirem-se um tanto pesados no decurso de uma boa refeição. Hoje não era assim. Os convivas sentiam o corpo e o coração mais leves à medida que o jantar avançava. Já não precisavam de recordar mutuamente a sua promessa. Só quando se esquecia e renunciava firmemente a todo e qualquer pensamento sobre os prazeres da mesa --compreendiam-no agora-- se podia enfim comer e beber como a lei manda.
O General Loewnhielm pousou o talher, ficou imóvel. Mais uma vez se sentiu transportado a esse jantar em Paris de que se lembrara no trenó. Um prato incrivelmente recherché e saboroso fora ali servido; perguntara o nome desse prato a um conviva, o Coronel Galliffet, e o Coronel, sorrindo, respondera-lhe que se chamava cailles em sarcophage. Mais lhe disse ainda que o prato havia sido inventado pelo chefe de cozinha desse mesmo café onde se encontravam, que tinha fama, em toda a cidade de Paris, de ser o maior génio culinário desse tempo, e que era, pasme-se uma mulher! «E realmente», disse o Coronel Galliffet, «esta mulher faz de um jantar no Café Anglais um verdadeiro romance de amor, dessa nobre e romãntica ordem em que se confundem os apetites e a saciedade tanto do corpo como do espírito! Já um dia me bati em duelo por causa de uma bela dama. Por nenhuma outra mulher de Paris, meu jovem amigo, eu verteria agora mais alegremente o meu sangue!» O General Loewnhielm voltou-se para o seu vizinho da esquerda e disse:
- Mas isto são cailles en sarcophage!
O vizinho, que estivera ouvindo a descrição de um milagre, encarou-o com um olhar ausente, assentiu num aceno e retorquiu:
- Sim, sim, claro. E que outra coisa poderia ser?
A conversa à mesa divergiu dos milagres do Mestre para os milagres menores de bondade e caridade operados dia a dia por suas filhas. O velho Irmão que primeiro entoara o hino citou a máxima do Deão: «Da nossa vida na Terra só poderemos levar aquilo que dermos!» Os convivas sorriram: que sumptuosidades iriam conhecer no outro mundo estas donzelas pobres e simples!
O General Loewnhielm já não se maravilhava de nada. Quando, momentos depois, viu as uvas, os pêssegos e os figos frescos diante de si, riu para o conviva do outro lado da mesa e observou:
- Que belas uvas!
O conviva replicou:
- E chegados a vale do Escol cortaram um ramo de videira com um cacho de uvas, que dois homens transportavam numa vara.
Então o General sentiu que era tempo de fazer um discurso. Levantou-se, empertigou-se.
Mais ninguém a essa mesa se tinha levantado para falar. Os velhos ergueram os olhos para o seu rosto em grande e feliz expectativa. Estavam habituados a ver os marinheiros e os vagabundos mortos de bêbados com o espesso gin da região, mas não reconheciam num guerreiro e cortesão a embriaguês produzida pelo mais nobre vinho do mundo."
Karen Blixen (trad. Maria Jorge de Freitas), A Festa de Babette e outras histórias do destino, Edições Asa, 1995.
posted by luis Quarta-feira, Outubro 28, 2009
Segunda-feira, Outubro 26, 2009
há a descoberta de uma nova maneira de estar vivoesta vida que tem sido para mim uma segunda morte
O actor é um pensamento em cena
não é preciso reflectir para fazer o bemrecriar o fogo de um pensamento
fotografias de Luís Santos e Paulo Cintra
Duas das últimas adaptações explícitas de tragédias gregas que tinha visto foram os filmes Noite Escura e Mal Nascida, de João Canijo, que muito para lá do fio da navalha nos mostram algum mundo português de Portugal: cru, sujo, violento, analfabeto, racista, xenófobo, machista, criminoso e inocente.
Há ali, no fundo do poço, uma luta constante pela sobrevivência e pela esperança, por uma ideia, de que falam Rui Chafes, Lobo Antunes e Luís Miguel Cintra, por exemplo, de uma ideia universal, que se fixe e que se fosse possível não se pudesse voltar a violar, de adquirido; na lama ou no lixo o nascimento de uma flor, como em Fellini.
Beatriz Batarda, no Noite Escura, a limpar o chão cheio de sangue da casa de banho do bar de alterne, e, agora, na Ifigénia na Táurida, uma nova Diana, nesse teatro da cornucópia onde, sempre que vou, vejo actores em luta por essas ideias, imortais e universais, dando corpo a esse "o actor é um pensamento em cena", lutando e sofrendo e gemendo e chorando e gritando como se ali, naquele momento, naquela tensão, se decidisse tudo. E decide, sabemos.
É por isso que ali aplaudo sempre de pé, satisfeito e consumido.
posted by luis Segunda-feira, Outubro 26, 2009
Domingo, Outubro 25, 2009
.
Texto de Paulo Pires do Vale
"1. Entre mesas e cadeiras desertas, um corpo vestido de branco. Atravessa o espaço de olhos cerrados e lança-se contra a parede cinzenta. Uma e outra vez. Corpo cansado, indefeso. Encosta-se, enrola-se, abraça-a como se fosse sua a pele do muro. Não é. É a dor, consciente de si. Abandono. Cegueira. Outro olhar não será possível sobre o terrível esplendor da perda, num palco tão cheio de ausência. O corpo esguio e desaparecente percorre o lugar lentamente, ou numa súbita urgência, e desenha a vertigem: um círculo em redor do vazio. É a embriaguez sonâmbula da insone. Tão frágil o seu corpo. Fantasma. Só, no seu lamento. Mesmo estando lá o seu duplo, ergue-se à nossa frente o desencontro e a impossibilidade do abraço. Como na ária que escutamos: o violino toca desencontrado da voz da soprano.
2. Será o mais íntimo de cada um este confronto matricial com os fantasmas? Um delírio sonâmbulo. De olhos fechados. Tacteando. Esbracejando por alguém – o eu, o outro – que não pode ser seu, regressando novamente à obscuridade, de onde o queríamos resgatar ou ser resgatados. Incapazes de agarrar o vazio - a parede contra a qual nos atiramos à espera. Num pedido repetido de braços esticados, a que a resposta tarda. E recomeça tudo outra vez. Um corpo cai, levanta-se, cai e levanta-se, cai… (e ouvimos Titânia repetir insistentemente a mesma frase: o let me weep, forever).
3. A repetição é da ordem do tempo sagrado. Uma forma de entrada no tempo inumano da eternidade: sem princípio nem fim, eterno retorno circular, sem disrupção nem desatenção. Mas a repetição obsessiva e compulsiva é também sinal de um mal-estar humano, de uma angústia que se procura exorcizar pelo ritual repetitivo, e que se torna perturbação incontrolável e ainda mais angustiante3. Perante a repetição dos gestos dos bailarinos, essa esteriotipia encenada, na sua desmesura, o público sente desconforto, deixa a sua zona de segurança. Já não vê apenas um desequilíbrio na ordem temporal, experimenta-o no excesso.
4. Os gestos repetidos dos seus bailarinos são à imagem do paciente tecer e desfazer de Penélope, que ainda espera o que vem. E que se distingue da repetida tarefa absurda de Sísifo pela possibilidade de um fim. O inferno – o de Sísifo e o nosso - é a impossibilidade do fim: querer morrer e não poder. Mas aqui há ainda e sempre uma saída. No palco, como na rua, o pano cai. E o fim, sabe o corpo, é horizonte que liberta. O limite é condição de começo, de possibilidade. Para aquela que dança, a obediência aos limites do seu corpo não é escravatura, mas o principio de libertação. Nesse corpo-limite vulnerável cria desenhos que são nascimento de outro modo de habitar e se orientar no mundo, que provocam um deslocamento de ponto de vista. Uma saída.
5. Quem escuta ainda o corpo febril da Pitonisa, quem se vê naquela que nada vê? Ela era Tirésias dançando aquilo que mais ninguém sabe. A cegueira era nela excedência do olhar e não falta – como o rosto de Moisés, que tinha de ser coberto por um véu depois de falar com Deus porque ninguém aguentava o seu brilho. O corpo de Pina estava um passo à frente, sabia primeiro e antes de qualquer pensamento chegar. Sabia antes de saber que sabia. E sobre o palco, como sobre o célebre pórtico de Delfos, um repto é lançado: só uma vida reflectida merece ser vivida. É preciso coloca-la em palco. E não será uma contradição querer ver a obscuridade com os holofotes ligados?
6. Ela não recusou o palco. É a ele que a rua sobe, onde a sua linguagem é transfigurada em poema-imagem: espelho que deforma para nos vermos melhor. Ternura e crueldade, baile e luto, o desejo e o conflito dos corpos, o sexo e os sexos. Ela conhecia profundamente a arte do desiquilibrismo, da arritmia. E tanto podia dançar a sua íntima respiração atenta, como reordenar o caos de um mercado ou praia. Tornava a angústia tangível e celebrava a alegria mais incontida. E mesmo na mais lacrimosa violência, na terra devastada, nas feridas mais abertas, desprendia-se a beleza desarmante. A beleza. De quem, estando no mundo, inaugura nele um reino que não é deste mundo - e por isso ameaça-o de destruição, porque pode renová-lo, recriá-lo a partir dos destroços. Como só o amor pode.
7. Dançar é uma forma de amar. Desse amor que expulsa os amantes do mundo, dizia Hannah Arendt. Amor que é, por isso, força antipolítica e, ao mesmo tempo, a raiz de todas as revoltas que querem justiça, mostraram-no Antígona e Prometeu. Da mesma maneira que o amor, a obra de arte expulsa do mundo, para a ele fazer regressar. Já outro. Uma passagem, uma porta-giratória: Pina oferece sempre uma saída, que é uma entrada num mundo mais largo. Mesmo que para lá chegar seja preciso abrir a porta para a noite mais cruel, aquela que proibiram de abrir.
8. A poesia tem a sua origem mítica no confronto com a morte – o absoluto fora do mundo, porque a morte não é experiência possível. Como o amor, como a obra-de-arte, também a morte nos expulsa, mas de forma absoluta. É a im-possível. E dela só pode dar testemunho aquele que desceu à sombra e se tornou vestígio dessa descida impensável e intestemunhável ao reino dos mortos. E uma testemunha só o é porque transporta algo de intestemunhável que fica necessariamente oculto, obscuridade essencial, experiência pessoal incomunicável de um conhecimento que queima e cega. Reduto do indizível. E quando ela dançava, ou fazia dançar, testemunhava o intestemunhável do testemunho. O seu corpo apontava: Vê, a Noite, ela mesma, está aqui.
9. Disse: “Por vezes, queremos falar de qualquer coisa e chegamos lá muito perto. Mas compreendemos, também, que é tão importante que parece estúpido só o facto de o mostrar. Então é como se o “vestíssemos” com outra coisa, porque mostrá-lo parece-nos arriscado, temos medo. É algo demasiado grande”. E esclareceu: “Há algo de muito mais sério do que aquilo que o público, em geral, pode ver. E existe, está ali, mas não vai ser exibido, porque eu quis escondê-lo. É como se houvesse sempre um grande conflito entre aquilo que queremos tornar claro e aquilo que nos serve para nos escondermos” . Ela lutava contra si própria, de olhos bem fechados, para resgatar Eurídice, mas sem a poder deixar sair do reino subterrâneo. Orfeu volta-se, Pina esconde-se. A obra não ressuscita o morto, aproxima-o do mundo mas já não é deste mundo: os braços fantasmagóricos de Eurídice tornam-se inalcançáveis e ela regressa à escuridão. E nós continuamos, regidos pelo tempo do sol e da lua.
10. Ao olhá-la, ao ver o seu ser-corpo que dança, compreendo a verdade da enigmática interrogação de Simone Weil: “Descer num movimento onde a gravidade não tem lugar... A gravidade faz descer, a asa faz subir: que asa à segunda potencia pode fazer descer sem gravidade?”. A resposta encontra-a Simone Weil na lei divina da graça: “A criação é feita do movimento descendente da gravidade, do movimento ascendente da graça e do movimento descendente da graça à segunda potência”. Pina Bausch era também a cheia de graça. A que se atirava ao pó e à cinza, ao chão nosso quotidiano, como ao céu mais puro.
11. “O céu dos santos é debaixo dos seus passos a própria terra” – escreveu Philippe Lacoue-Labarthe, pensando em Pasolini. Também por Pina Bausch agora o afirmo, e re-escrevo: na prática, ela foi justa. A sua forma de ascensão é resultado da graça mais elevada, a de segunda potência, a graça que é já movimento descendente. Em direcção à terra, à rua. E só os que não receiam sujar os pés e tocar o putrefacto a conhecem e podem transfigurar. E retomo o suspiro de um outro santo, para repetir envergonhado: tarde te amei.
Paulo Pires do Vale
Título original: Jogos de Luto
Texto escrito para a exposição "Laboratório #4 WAY OUT"
13.10.09 "
posted by luis Domingo, Outubro 25, 2009
Sábado, Outubro 24, 2009
"MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO – m.h.m, o documentário de André Godinho sobre o editor Manuel Hermínio Monteiro será exibido este sábado, dia 24 de Outubro, às 20h53 [segundo o site da rtp], na RTP2, sendo o quinto filme da série de documentários da Midas Filmes para a RTP2"
posted by luis Sábado, Outubro 24, 2009
Sexta-feira, Outubro 23, 2009
If you ever go to Houston (14)
outro extra! outro extra! outro extra!
Ivan Navarro
Não lhe pões o dedo; não lhe tocas; ou, não pões o dedo; das três não sei qual é a mais certa, não a escrevi só a ouvi, disse Saramago já em Lisboa, referindo-se assim à sua imaginada pouca tolerância do clero católico que reage mal quando vê e ouve pessoas falar e escrever sobre a Bíblia, e neste caso de um nobel.
Recuemos só até ao Renascimento. Os humanistas exortavam, e muito bem, o espírito crítico como veículo fundamental para iniciar e chegar a uma renovação cultural e artística e espiritual da Europa e das suas instituições.
Definição de espírito crítico, assim de um manual de História do ensino básico português: "atitude de um indivíduo que se recusa a aceitar todo e qualquer conhecimento pré-concebido, sem antes o submeter a uma reflexão sobre a sua origem e valor".
Agora Montaigne, de um manual de História, mas desta feita do ensino secundário, e mais à frente, daqui a um bocado, Balzac: Montaigne, Ensaios, então: "Não cessam de gritar-nos aos ouvidos, como quem deita por um funil, e a nossa obrigação é a de redizer aquilo que nos disseram. Quereria que ele [o preceptor] corrigisse isso, e que, logo de início, embora tendo em conta a idade e a personalidade do seu aluno, começasse a ensaiar fazer-lhe apreciar as coisas, escolhê-las e discernir por si próprio; algumas vezes abrindo-lhe o caminho, algumas outras deixando que ele o abrisse. Não quero que só ele invente e fale, quero que escute o seu discípulo falar por seu turno [...]. Que se não limite a pedir-lhe conta das palavras da sua lição, mas do sentido e da substância, e que avalie dos progressos que ele tenha feita, não pelo testemunho da sua memória, mas pelo da sua vida [...]. Que tudo lhe faça passar pela peneira, e nada alojar na sua cabeça por simples autoridade e crédito; os princípios de Aristóteles não lhe sejam princípios, nem os dos Estóicos ou Epicúrios. Que se lhe proponha esta diversidade de juízos: ele escolherá, se puder, se não, ficará na dúvida."
Parece óbvio, voltando ao não lhe pões o dedo; não lhe tocas; ou, não pões o dedo, que Saramago, como já o afirmaram muitas pessoas sobre esta discussão, disse o que disse e escreveu o que escreveu partindo de não saberes, apenas querendo ser polémico.
Quando criticamos e dizemos o que dizemos devemos tentar que seja bem, senão fazemos figura de tontos. Que parece ser o caso. Prova-o o contorcionismo desta espécie de volta atrás. É da natureza humana, claro, é assim.
Ou acham que o falta cumprir-se Portugal e o só três sílabas de plástico são do mesmo plano?
Saramago e os seus editores e os seus próximos quiseram criar um entretenimento e fazer soar aí pelo planeta que sim, que era ele, de novo.
Olhemos agora e ainda para Balzac para alargarmos a não discussão:
"Com excepção de Laure de Rastignac, de dois ou três jovens e do bispo, todos os ouvintes se entediavam", escreve a dados passos no Ilusões Perdidas.
Por diversas vezes Balzac se refere a clérigos dizendo que eles estavam lá, eram dos mais atentos e com opinião para dar e discutir. Por uma vez se refere aos mesmos num tom menos simpático, ainda que nas outras a ironia esteja presente.
Já notei algumas vezes que em discussões públicas sobre assuntos importantes, os clérigos convidados a dar a sua opinião vão sempre mais longe do que a maioria dos outros convidados, as suas reflexões tem mais reflexão, mais profundidade, mais premissas.
E não tem de ser assim; não tem de ser assim em relação aos outros porque os dias dos clérigos também têm 24 horas, dê por onde der só têm 24 horas.
E depois são homens e mulheres, ponto. Para mim não são mais responsáveis e mais exemplo do que outros. Vestem batina? Fizeram votos? A sociedade vê-os como? Se esticarem a corda vêem que o padre não tem mais tudo isso do que os outros.
Mas muitos estão lá e estão mais à frente, outros não. Como é natural. A este respeito anda a Antígona a publicitar a e dição de dois livros de Tomás da Fonseca que pretendem, entre outras coisas, açular o jacobinismo mais serôdio lá para o 5 de Outubro de 2010. Provar o quê?
Todavia não é por se estudar Teologia que se veste a roupa toda e se acha que todos os outros ainda não reflectiram o suficiente, ou que ainda não chegaram ao ponto, ou que não sabem o que estão a dizer. É que também acontece isso. No caso de Saramago é isso mesmo que não acontece, provocou e não esteve nem está pronto para retorquir, depois queixa-se e vitimiza-se. Azar.
A tolerância e a atenção em relação aos outros não veste roupa nenhuma, todos somos responsáveis por tudo e eu mais do que todos os outros, escreveu Dostoievski.
posted by luis Sexta-feira, Outubro 23, 2009
Quinta-feira, Outubro 22, 2009
Jacob e o Anjo
«First we feel, then we fall»
James Joyce
Há uma idade em que nos conhecemos
presos às paredes, cambaleantes
diante da noite sem fim
O menor movimento avizinha o fantasma
no escuro um de nós pode morrer
desces tu ou subo eu os degraus de uma lenda
um círculo interdito sobre a terra
Aperto contra ti a infelicidade dos meus braços
a navalha não do jogo, mas do rito
Tu porém inacessível
ardes entre a dupla folha
de ouro
José Tolentino Mendonça, O Viajante Sem Sono, Assírio & Alvim, 2009, p.17.
posted by luis Quinta-feira, Outubro 22, 2009
Quarta-feira, Outubro 21, 2009
Porta 33
posted by luis Quarta-feira, Outubro 21, 2009
Terça-feira, Outubro 20, 2009
José Saramago, comunista ortodoxo, parece que é um exagero dizer assim, não se consegue libertar da cartilha, mas como é nobel paira por cima dela, até já apoia o homem e o partido que lhe deu ou cedeu uma casa para a fundação, em Lisboa, não se consegue libertar da cartilha básica que tem dentro de si e depois diz o que diz, como aquelas pessoas que quando estão ensandecidas, enraivecidas tremem muito a falar e dizem que eu só quero dizer uma coisa; Marx, Manifesto do Partido Comunista, Materialismo Histórico, Lenine, Estaline, Sibéria? e por aí fora.
Claro que não, claro que não. Mas Saramago faz assim.
E a comunicação social, polvilhada de jornalistas que o que mais anseiam é obter um furo ou uma polémica que alimente dias e mais dias, lhe dá voz quando ele diz nada. Aliás, o que é que a comunicação social deste país faz neste país de comunicação? parece Coimbra, arre, a do conhecimento. Trágico, não é? Dá voz e vozes e vezes a quem diz nada, numa espécie de entretenimento colectivo esquizofrénico em que as pessoas acham graça não se sabe bem a quê; todos correm para os gato fedorento, já viram bem a figurinha que fazem aqueles convidados, e nós rimo-nos, vamo-nos rindo, achamos normal. Valparaiso de DeLillo também explica.
Vejam esta frase do ipsílon:
"Saramago volta a provocar a ira da Igreja. Católicos qualificam críticas do autor de Caim como "operação de publicidade". A controvérsia parece estar nos genes do escritor.
É uma espécie de sequela de um filme já visto no passado. O protagonista mantém-se: José Saramago. E o tema também: a religião. A diferença é que as palavras que reacenderam o rastilho da polémica surgiram a propósito do livro Caim e não de O Evangelho segundo Jesus Cristo."
; não diz nada, leia-se a frase outra vez: que consequências tiramos dela? O nada que diz já aparece justificada nela mesmo e tudo; é o vazio angustiante, perigoso e impotente. O que tiramos dela?
Ai, Conrad, Conrad, tu que não despediças uma frase, uma palavra, nem uma letra sequer.
Sei que é uma ilusão quase tola, mas gostava de encontrar neste livro saramaguiano, do nobel que nos mantém quase a par e passo das elites mundiais, segundo Rui Tavares, meia dúzia de frases como estas do "A Leste do Paraíso, de John Steinbeck, que li ontem a uma das turmas na escola:
"Deteve-se.
- Já pensou no seu próprio nome?
- No meu nome?
- Evidentemente. Os seus primeiros filhos... Caim e Abel.
Adam disse:
- Não, não temos o direito de fazer uma coisa dessas.
- Bem sei. Seria desafiar o destino, seja ele qual for. Mas não é estranho que Caim seja o nome mais conhecido em todo o mundo e que só um homem o tenha usado, pelo menos que eu saiba?
Lee disse:
- Talvez seja por isso que esse nome nada perdeu do seu significado.
Adam olhou o seu vinho cor de tinta.
- Tive um arrepio só de o ouvir dizer.
- Há duas histórias que nos perseguem e assombram desde os começos dos tempos --disse Samuel. - Trazemo-las connosco como duas caudas invisíveis, a história do pecado original e a de Caim e Abel. Pessoalmente, não as compreendo, não as compreendo mesmo nada, mas sinto-as. A Lizza zanga-se comigo, diz que eu não devia tentar compreendê-las, que é inútil explicar uma verdade. Talvez tenha razão. A Lizza afirmou-me que você era presbeteriano, Lee. Você compreende o jardim do Paraíso e Caim e Abel?
- A sua mulher pensou que eu devia ser alguma coisa e, a verdade, é que andei na escola dominical em San Francisco há muitos anos. As pessoas gostam que nós sejamos alguma coisa, de preferência o que elas próprias são.
Adam disse:
- O Samuel perguntou-lhe se compreendia.
- Julgo compreender a queda original. Ou antes, sinto-a. Mas o assassínio do irmão, não. Talvez seja por não me recordar bem de todos os pormenores.
Samuel disse:
- A maioria das pessoas não conhece os pormenores. Ora são precisamente os pormenores que me deixam perplexo. Quando penso que Abel não teve filhos! (Olhou o céu.) Valha-me Deus, como este dia tem passado depressa! É como a vida que passa ràpidamente quando não lhe prestamos atenção e lentamente quando a observamos. Não! --disse ele. - Estou a gostar e prometi a mim mesmo nunca considerar o prazer um pecado. Sinto-me feliz quando interrogo, quando levanto a pedra para ver o que tem debaixo. E o meu maior desgosto é saber que nunca poderei ver o que está do outro lado da Lua.
- Eu não tenho Bíblia --disse Adam. - A da minha família ficou no Connecticut.
- Eu tenho uma --disse Lee. - Vou buscá-la.
- Não é preciso --disse Samuel. - A Lizza emprestou-me a da mãe dela. Tenho-a aqui na algibeira. (Tirou o embrulho e mostrou o livro estragado.) Está rasgada e toda roída --disse ele. - Só queria saber a quantas agonias já assistiu. Dêem-me uma Bíblia usada e creio ser capaz de descrever um homem pelas páginas ratadas e pelas marcas dos dedos. A Lizza também tem dado muito uso à sua Bíblia. Cá chegamos, portanto. À mais velha de todas as histórias. Se ela nos perturba é porque a perturbação está dentro de nós.
- Desde pequeno que nunca mais a ouvi ler --disse Adam.
- Então, deve julgar que é comprida, quando afinal é curta --disse Samuel. - Vou lê-la toda para, depois, a comentarmos. Dê-me vinho, que já sinto as goelas secas. Ora aqui está. Uma história tão pequena mas que abriu tamanha ferida! (Olhou para o chão.) Os meninos adormeceram mesmo no chão.
Lee ergueu-se.
- Vou tapá-los --disse ele.
- A poeira também aquece --disse Samuel. - Agora, oiçam: «Ora Adão conheceu a sua mulher Eva; a qual concebeu e pariu a Caim, dizendo: Eu possuí um homem por Deus.»
Adam quis falar, mas Samuel olhou para ele. Adam calou-se e cobriu os olhos com a mão. Samuel continuou:
«Depois teve a Abel, seu irmão. Abel porém foi pastor de ovelhas, e Caim lavrador. Passado muito tempo aconteceu oferecer Caim ao Senhor os seus dons dos frutos da terra. Abel também ofereceu das primícias do seu rebanho, e das suas gorduras; e olhou o Senhor para Abel e para os seus dons. Para Caim, porém, e para os dons não olhou.»
Lee interrompeu:
- Aí... Não, continue, depois voltamos atrás.
Samuel prosseguiu:
«E Caim se irou fortemente, e o seu semblante descaiu. E o Senhor lhe disse: Porque andas tu irado? E porque descaiu a tua face? Porventura, se tu obrares bem, não receberás recompensa? E se obrares mal, não estará logo o pecado à porta? Mas a tua concupiscéncia estar-te-á sujeita, e tu dominarás sobre ela. Caim porém disse a seu irmão Abel: Saiamos fora. E quando ambos estavam no campo, investiu Caim com seu irmão Abel, e matou-o. E o Senhor disse a Caim: Onde está o teu irmão Abel? Ele respondeu: Não sei. Acaso sou eu o guarda de meu irmão? E o Senhor lhe disse: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama desde a terra por mim. Agora pois serás tu maldito sobre a terra, que abriu a sua boca, e recebeu o sangue de teu irmão da tua mão. Depois que tu a tiveres cultivado, ela te não dará os seus frutos: tu andarás vagabundo, e fugitivo sobre a terra. E Caim disse ao Senhor: O meu pecado é muito grande, para eu poder alcançar perdão. Eis-aí me lanças tu hoje da face da terra, e eu me irei esconder da tua face, e andarei vagabundo e fugitivo na terra: todo o que pois me achar, matar-me-á. E o Senhor lhe respondeu: Não será assim: antes o que matar a Caim será castigado sete vezes nais. E o Senhor pôs um sinal em Caim, para que o não matasse quem quer que o encontrasse. E Caim, tendo-se retirado de diante da face do Senhor, andou errante pela terra, e ficou habitando no país que está a Leste do Paraíso.»
Samuel fechou o livro com uma espécie de cansaço.
- Aqui têm --disse ele--, dezasseis versículos, nem mais, nem menos. E, Deus do Céu, só agora reparo numa coisa terrível: nem uma única palavra de encorajamento. Talvez a Lizza tenha razão. Não há nada a compreender.
Adam suspirou profundamente.
- Não é uma história reconfortante.
Lee encheu o copo com o seu licor escuro, levou-o aos lábios, mas ficou com o líquido na boca. Depois de o ter engolido, disse:
- Só têm força ou deixam vestígios as histórias que somos capazes de sentir dentro de nós. Muito grande é o fardo de culpas que os homens carregam!
Samuel disse a Adam:
- E você tentou carregá-lo sòzinho.
Lee disse:
- O mesmo acontece comigo e com toda a gente. Colhemos as culpas às braçadas como se fossem uma coisa preciosa. Deve ser porque assim o desejamos.
Adam interrompeu:
- Isso faz com que me sinta melhor e não pior.
- Porque diz isso? --perguntou Samuel.
- Não há criança nenhuma que não julgue ter inventado o pecado. Convencemo-nos de que nos ensinam a virtude e de que o pecado nasce em nós.
- Estou a ver. Mas em que é que esta história atenua o pecado?
- Nós somos os descendentes dele --disse Adam com veemência. - Ele é nosso pai e parte da nossa culpa é absorvida pela nossa ancestralidade. Que oportunidade tivemos nós? Nós não somos os primeiros, somos os filhos do nosso pai. É uma desculpa e não há ssim tantas neste mundo.
- Pelo menos, convincentes --disse Lee. - Se não fosse isso, já há muito tempo que teríamos acabado com a culpa, e o mundo não estaria povoado de homens tristes que vergam ao peso do castigo.
Samuel perguntou:
- Mas que outra situação poderíamos imaginar? Com desculpas ous em elas, estamos ligados à nossa ancestralidade. Carragamos a culpa.
Adam disse:
- Lembro-me de me ter enfurecido com Deus. Caim e Abel ofereceram-lhe o que tinham, e Deus aceitou Abel e repudiou Caim. Sempre pensei que era justo. Se vocês compreendem, eu não compreendo.
- Talvez a gente não interprete bem o quadro por ter perdido a moldura --disse Lee--. - Esta história foi escrita por um pastor para um povo de pastores. Não eram lavradores. O Deus dos pastores não se sentirá mais inclinado a preferir um cordeiro a um molho de cevada? Uma oferenda deve ser constituída pelo melhor e pelo mais valioso.
- Percebo o que quer dizer --retorquiu Samuel--. - Lee, previno-o duma coisa: nunca se ponha com raciocínios orientais diante da Lizza.
Adam estava excitado pelo jogo:
- Sim, mas porque foi que Deus condenou Caim? É uma injustiça.
Samuel respondeu:
- Há toda a vantagem em prestar atenção ao significado das palavras. Deus não condenou Caim. Até o próprio Deus pode ter uma preferência, não é verdade? Suponhamos que Deus tenha preferido o anho aos produtos da terra. Aliás, também é do que eu mais gosto. Caim levava-lhe, digamos, um molho de cenouras. Deus responde: «Não gosto disso. Experimenta outra coisa. Traz-me algo que me agrade e terás a mesma afeição que dedico ao teu irmão.» Caim enfurece-se, sente-se ofendido. E quando um homem fica ferido no seu amor-próprio, sente logo ganas de bater em qualquer coisa. Abel atravessou-se no caminha da sua cólera.
- S. Paulo diz aos Hebreus que Abel tinha fé --disse Lee.
- O Génesis não fala nisso --disse Samuel. - Nem em fé, nem em falta de fé. Apenas se refere à ira de Caim.
Lee perguntou:
Que pensa a Sr.ª Hamilton dos paradoxos da Bíblia?
- Não pensa coisa nenhuma, pelo simples facto de não os admitir.
- Mas...
- Calma. Experimente perguntar-lhe e verá que sai da discussão com os cabelos brancos e sem ter adiantado coisa nenhuma.
- Vocês estudaram isso, enquanto eu só tenho uma ideia superficial. Então Caim foi expulso por assassínio?
- Exactamente, por assassínio.
- E Deus marcou-o?
- Então não ouviu? Caim tinha uma marca, não para ser destruído, mas para que se salvasse. Pesa uma maldição permanente sobre todo o homem que o matar. A marca destinava-se a preservá-lo.
Adam afirmou:
- Continuo convencido de que Caim não foi tratado com igualdade.
- Talvez --disse Samuel--. -Mas Caim viveu e teve filhos, enquanto Abel apenas viveu na história. Todos nós somos filhos de Caim. E não é estranho que três adultos, passados milhares de anos, discutam esse crime como se ele tivesse sido cometido ontem, em King City, e a sentença ainda não tivesse sido proferida?
Um dos gémeos acordou, bocejou, olhou Lee e tornou a adormecer.
Lee disse:
- Lembra-se de lhe ter dito, Sr. Hamilton, que estava tentando traduzir antigas poesias chinesas para inglês? Não, não tenha medo, não lhas vou ler. Ao dedicar-me a esse trabalho, verifiquei que certos pensamentos perdidos na bruma do tempo se mantinham tão frescos e claros como um nascer de sol. Se a história não disser respeito ao auditor, ele acaba por se desinteressar. Creio poder enunciar esta regra: se uma história quiser ser grande e perpetuar-se, terá de se dirigir a cada um de nós. Os factos estranhos e longínquos não nos interessam, só o que é profunfamente pessoal e familiar nos desperta a simpatia.
Samuel disse:
- Aplique então isso ao drama de Caim e Abel.
Adam retorquiu:
- Eu não matei o meu irmão...
Sùbitamente, deteve-se, às voltas com o passado.
- Posso fazê-lo --respondeu Lee a Samuel--. - Esta história só é conhecida dos homens por ser a sua própria história. É a história simbólica da alma humana. Creio estar no bom caminho... não me interrompam se não me exprimir com clareza. O que mais aterroriza as crianças é o receio de não serem amadas; acima de tudo, temem ser repelidas. Afinal, todos o fomos, em maior ou menor grau. Daí nasce a cólera que leva a um crime qualquer para obter vingança, e com o crime vem a culpa: é a história da humanidade. Se o homem não fosse repelido por aqueles que ama, não seria o que é. Talvez houvesse menos desequilibrados. E tenho a certeza de que as prisões deixariam de ser necessárias. Tudo começa por aí. Uma criança, ao ver recusar o amor que pede, dá um pontapé num gato e esconde a sua culpa secreta; uma outra rouba o dinheiro para comprar o maor; uma outra conquista o mundo --é sempre a mesma coisa: culpa, vingança e culpa maior ainda. O ser humano é o único animal que tem remorsos. Esperem! Tenho a impressão de que esta antiga e terrível história é importante, porque define o mapa da alma, essa alma secreta, desdenhada, culpada. Sr. Trask, o senhor disse que não tinha matado o seu irmão, mas lembrou-se de qualquer coisa. Não me interessa saber o que era, mas teria tão pouco que ver com Caim e Abel? E o senhor, Sr. Hamilton, que pensa do meu raciocínio oriental? Sabe muito bem que sou tão oriental como o senhor.
Samuel apoiara os cotovelos na mesa e encostara o rosto às mãos.
- Quero pensar --disse ele. - Deixe-me, quero pensar. Preciso de desmontar tudo o que disse, para estudar as peças uma a uma. Parece-me que deu cabo do meu mundo e ainda não sei o que irei construir em seu lugar.
Lee perguntou serenamente:
- Não se poderia construir um mundo sobre a verdade? Não se poderiam arrancar certas dores e certas loucuras, se tivéssemos os intrumentos necessários?
- Não sei. Você destruiu o meu belo universo, inventou um jogo orgulhoso e transformou-o numa lei. Deixe-me em paz, preciso de reflectir. Os seus horríveis bicharocos já começaram a proliferar no meu cérebro. Gostava de saber o que pensará o Tom de tudo isto. Era capaz de acalentar os bicharocos na mão, de os fazer girar devagar em cima do lume, como um frango no espeto. Adam, acorde, para recordações já basta.
Adam sobressaltou-se, suspirou demoradamente e perguntou:
- Não será simples de mais? Sempre tive medo das coisas simples.
- Não é nada simples --disse Lee. - É desesperadamente complicado. Mas no fim há a luz.
- Haja o que houver, a do Sol está a ir-se embora --disse Samuel. - Nem demos pela passagem do tempo. Afinal, vim eu para baptizar as crianças e elas continueam sem nome. Temos andado aqui às voltas, sem sair da cepa torta. Quanto a si, Lee, era preferível que não fosse explicar as suas concepções à Igreja. Os Chineses não estão isentos da cruz, que eu saiba. A Igreja gosta das complicações, mas só das suas. Tenho de voltar para casa.
Adam pediu com desespero:
- Dêem-me nomes.
- Da Bíblia?
- Seja de onde for.
- Ora vejamos. De todos os homens que fugiram do Egipto, só dois chegaram à Terra da Promissão. Não acha que esses dois nomes são bastante simbólicos?
- Quais?
- Caleb e Josué.
- Josué era um soldado, um general. Eu não gosto do exército.
- Caleb era capitão.
- Mas não era general. Caleb agrada-me... Caleb Trask.
Um dos gémeos despertou e largou logo a chorar.
- Chamou-o pelo nome --disse Samuel. - Josué não lhe agrada e Caleb está escolhido. Será portanto aqele, o espertalhão, o mais moreno. Olhe, o outro também já acordou. Sempre gostei de Aaron, mas esse não chegou à Terra de Canaã.
O segundo garoto soltou um grito que parecia quase de alegria.
- Esse nome é bom --disse Adam.
Samuel deu uma grande gargalhada.
- Em dois minutos --disse ele--, e depois duma torrente de palavras. Caleb e Aaron, agora já sois gente, fazeis parte da nossa comunidade e tendes direito à danação.
Lee pegou nos dois meninos e perguntou:
- Já não os confunde?
- Não --respondeu Adam. - Este é o Caleb e tu, tu és o Aaron.
- Lee levou os gémeos a berrar para casa.
- Ontem, ainda, era incapaz de os distinguir --disse Adam. - Aaron e Caleb!
- Louvado seja Deus por ter recompensado os nossos esforços --disse Samuel. - A Lizza devia preferir Josué. Ela sempre teve um fraco pelas trombetas de Jericó. Mas também há-de gostar de Aaron. Portanto, está tudo em ordem. Vou atrelar o carro.
Adam acompanhou-o até à cocheira.
- Ainda bem que veio. Parece que me tirou um grande peso de cima.
Samuel meteu o freio na boca de «Doxology», endireitou a testeira e prendeu a fivela do peitoril.
- Se calhar, agora, vai pensar de novo no jardim? Já o estou a ver como o tinha sonhado.
Adam só respondeu passado algum tempo:
- Já não tenho energias para isso. Não me falta dinheiro para viver e já não tenho ninguém a quem mostrar esse jardim.
Samuel aproximou-se dele com os olhos marejados de lágrimas.
- As energias nunca morrem --disse ele. - Não conte com isso. Julga que é melhor do que os outros? A energia só morrerá consigo.
Ficou a arquejar, depois subiu para o cabriolé, chicoteou «Doxology» e partiu todo curvado, sem dizer adeus."
Este excerto foi retirado da 2ª edição, Livraria Bertrand, traduzido por João B. Viegas, s.d.
E agora vou ali ouvir a música seis do coração independente, de amália, estou viciado, é a vida.
posted by luis Terça-feira, Outubro 20, 2009
Depois de Só o Amor é Digno de Fé
"Sobre Hans Urs von Balthasar escreveram:
Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI)
«Posso afirmar que a sua vida foi uma busca genuína da verdade, que ele compreendia como uma busca da verdadeira Vida. Procurou os vestígios da presença de Deus e da sua verdade em toda a parte: na filosofia, na literatura, nas religiões, chegando sempre a interromper aqueles circuitos que muitas vezes fazem a razão prisioneira de si e abrindo-a aos espaços do infinito.»
Henri de Lubac
«Esse homem [Hans Urs von Balthasar] é talvez o mais culto do seu tempo. A Antiguidade clássica, as grandes literaturas europeias, a tradição metafísica, a história das religiões, as múltiplas tentativas do homem contemporâneo na busca de si mesmo e, sobretudo, a ciência sagrada, São Tomás, São Boaventura, a Patrologia (inteira!), sem falar por agora da Bíblia…—não há nada de grande que não encontre neste grande espírito acolhimento e vitalidade.»"
posted by luis Terça-feira, Outubro 20, 2009
Segunda-feira, Outubro 19, 2009
E NÃO ANDAM POR AÍ,
À NOSSA PROCURA?
"E por que não – disse para mim próprio - representar esta inaudita situação de um autor que se recusa a deixar viver algumas personagens, nadas vivas na sua fantasia, personagens que infusas de vida se não resignam a ser excluídas do mundo da arte? Elas já se destacaram de mim; vivem por conta própria; adquiriram voz e movimento; já se tornaram por elas mesmas, nessa luta pela vida que travaram comigo, personagens dramáticas, personagens que mexem e falam por si; já se vêem como tal; aprenderam a defender-se de mim; saberão também defender-se dos outros. Pois bem, deixemo-las ir aonde vão habitualmente as personagens dramáticas para terem vida: ao palco. E vejamos o que acontece.
Sem querer, sem saber, no tumulto da sua exaltação, cada uma delas, a fim de se defender das acusações da outra, exprime apaixonada e sofridamente o que tantos anos foi o tormento do meu espírito: o equívoco da compreensão mútua, irremediavelmente baseado na abstracção vazia das palavras; a personalidade múltipla de cada um consoante todas as possibilidades de ser que há em nós; e, enfim, o trágico conflito imanente entre a vida que se move e modifica e a forma que a fixa, imutável.
Duas destas personagens, sobretudo, o Pai e a Enteada, falam desta fixidez atroz e inelutável da sua forma, na qual ambas vêem exprimir-se para sempre, definitivamente, a sua essência: para uma o castigo, para a outra a vingança. E defendem-na contra os esgares factícios e a versatilidade inconsciente dos actores, procurando impô-la ao vulgar Director da companhia que a queria alterar de forma a daptá-la às exigências do teatro.
O facto é que a peça foi verdadeiramente concebida como uma revelação espontânea da minha imaginação, num desses momentos em que, como por prodígio, todos os elementos do espírito se correspondem e trabalham em divino acordo. Nenhum cérebro humano, trabalhando a frio, por mais que se esforçasse, teria conseguido penetrar e satisfazer todas as exigências da sua forma. Deste modo, as razões que vou aduzir para esclarecer esses valores não devem ser entendidas como intenções que presidiram à elaboração desta peça e que vou agora defender, mas tão somente como descobertas que, mais tarde, de espírito repousado, pude fazer."
SEIS PERSONAGENS
À PROCURA DE AUTOR
ARTISTAS UNIDOS
SET ~ OUT O9
posted by luis Segunda-feira, Outubro 19, 2009
Quinta-feira, Outubro 15, 2009
If you ever go to Houston (12)
esta fotografia (L.M.D., sem título, 2009)
(A1 Porto-Lisboa e vice-versa)
lembra-me o pântano que José Cardoso Pires descreve em "O Delfim"
E ao décimo segundo If you ever go a Houston vou dizer aquilo que não queria dizer, pelo menos para já, uma vez que a primeira nota deste If you ever... é paradigmática demais, demasiado, dramática. E o que é que tens para dizer, que mereça uma nota introdutória? Pois, é que quando se diz e se fala e se escreve que Portugal está atrasado para aí 30 ou 40 ou 50 anos em relação a alguma Europa e em relação a algum Mundo, e os historiadores e os filósofos, e os escritores e os poetas, entre outros, dizem e falam, e bem, que as mentalidades são o que mais tempo demora a mudar e a ajustar-se, é o que não se vê do tempo longo, é como encontrarmos alguém que já não encontrávamos há muitos anos e ______ ver Wilma Loomis a olhar e ver Bud Stamper´.
Podemos discutir e reflectir o que quisermos mas nas elites é pior quando isto acontece, e ainda mais em elites lúcidas. Atentemos então, em especial na nota 1:
1. "Os votantes desse conselho junto a Lisboa vão ser submetidos a uma grande prova. Terão de decidir se querem que Oeiras passe a ser confundida com Felgueiras, Gondomar e Marco de Canaveses!"
Quando lia o texto este ponto lembrou-me aquelas estrelas amarelas e o som dos passarinhos que aparecem nos desenhos animados e na banda desenhada depois de uma queda ou de uma cabeçada ou de uma martelada dada por outrem.
"Os votantes desse conselho junto a Lisboa vão ser submetidos a uma grande prova. Terão de decidir se querem que Oeiras passe a ser confundida com Felgueiras, Gondomar e Marco de Canaveses!"
As estrelas iam-se tornando vermelhas.
"Os votantes desse conselho junto a Lisboa vão ser submetidos a uma grande prova. Terão de decidir se querem que Oeiras passe a ser confundida com Felgueiras, Gondomar e Marco de Canaveses!"
O galo a subir.
"Os votantes desse conselho junto a Lisboa vão ser submetidos a uma grande prova. Terão de decidir se querem que Oeiras passe a ser confundida com Felgueiras, Gondomar e Marco de Canaveses!"
José Manuel dos Santos devia ter mascado uma chiclete e imitado Sandrinha: "o quiefloufouvia, puofessou?" em vez de... Isto é muito mau.
"Os votantes desse conselho junto a Lisboa vão ser submetidos a uma grande prova. Terão de decidir se querem que Oeiras passe a ser confundida com Felgueiras, Gondomar e Marco de Canaveses!"
É que não sei o que dizer, mesmo, até parece que era preciso dizer tanto e tanto, quase tudo, acho que é mesmo um drama, a sério. Saia-se uma chiclete.
2. De metáforas gosto muito, oh, se gosto, nos últimos quinze dias uma falava de escola e outra falava de igrejas, mas se os jornais portugueses tivessem um patamar mínimo de qualidade e de exigência e de outras coisas mais já não escreviam por lá há muito. E depois ainda falam e citam jornais estrangeiros. A inveja é para os tolos, já ninguém acredita nisso.
3. E para terminar que já vai longo, sem comentários:
no jornal público de hoje, quinta-feira, 15 de Outubro de 2009, página 12: a ministra da educação para uma aluna do primeiro ciclo do ensino básico: "E o que é que gostas mais nesta escola nova?" e a aluna: "Da professora." e a ministra, mais tarde: "os alunos naturalizam as condições envolventes e acabam por dar mais importância à figura do adulto."
Ponto final parágrafo.
posted by luis Quinta-feira, Outubro 15, 2009
Quarta-feira, Outubro 14, 2009
Porta 33
espelho. lento. visibilidade. viés.
Ana Vieira, In/visibilidades, 2008
Jorge Silva Melo sobre In/visibilidades, de Ana Vieira, a partir de um conto de Richard Zimler que uma amiga, ao telefone, lhe contou.
posted by luis Quarta-feira, Outubro 14, 2009
Terça-feira, Outubro 13, 2009
a lança entra na nuca, sai pela boca, levando a língua na ponta
fotograma de Mal nascida, de João Canijo"DRAMA - Outra das consequência mais óbvias destas adaptações é a necessidade da violência: acontecimentos dramatica e visualmente marcantes. Porquê esta violência no contexto sociológico português?
João Canijo - São duas coisas que se juntam. A primeira é que eu sempre achei que a violência profunda da sociedade portuguesa era imensa. E que estava disfarçada. Não é disfarçada: as pessoas não a querem ver. Não querem olhar para ela. Mas ela existe de uma maneira muito profunda e muito violenta. Por outro lado, as tragédias gregas, como lidam com sentimentos primordiais, são absolutamente violentas. Portanto, juntam-se as duas coisas. Junta-se a fome com a vontade de comer.
DRAMA - Embora haja uma diferença: as tragédias nunca mostram. É sempre alguém que conta o que aconteceu. Enquanto que, nos filmes do João Canijo, essa violência é muito física e visual.
JC - Mas [as tragédias] contam de uma maneira muito pormenorizada e muito sanguinária. Não sei se é na versão do Ésquilo, mas contam mesmo o número de machadadas que o Agamémnon leva. E os gregos gostavam muito de contar essas partes. Se lerem a Ilíada, há uma descrição em que o Homero - ou seja quem for - descreve que a lança entra na nuca, sai pela boca, levando a língua na ponta. É bastante gore.
DRAMA – Falou, em diferentes entrevistas (acho que a propósito do "Noite Escura"), que quis afogar a tragédia. A tragédia, no sentido dado pelos gregos, é hoje impossível?
JC - Acho que não. A ideia de afogar a tragédia era uma ideia conceptual, que tem a ver com uma coisa que me preocupava na altura e que ainda me preocupa, que vem do Matisse. Um dos grandes pontos de batalha do Matisse era a preocupação em não ter no quadro o elemento preponderante. Todos os elementos do quadro deviam ter o mesmo valor. Ao contrário da perspectiva que dirige o olhar para o ponto central do quadro. O Matisse pretendia o contrário: que o olhar não fosse dirigido para nenhum lado particular do quadro e que o espectador fosse descobrindo o que quisesse. É nesse sentido que eu queria afogar a tragédia."
posted by luis Terça-feira, Outubro 13, 2009
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
E NÃO ANDAM POR AÍ,
À NOSSA PROCURA?
Jorge Silva Melo
“E eis que surge uma família em luto, com rostos esmaecidos e como que vindos de um sonho. São as Seis Personagens que procuram Autor e que tentam viver. Querem ser mergulhadas num drama. São mais reais do que tu, encenador, trapalhão imundo. São reais e demonstram-no…”
Foi com esta declaração que Antonin Artaud saudou a estreia em Paris (em 1923, pelos Pitoeff) deste texto que rasgou as quatro paredes falsas do teatro como, ao mesmo tempo, entre o Cais do Sodré e Campo de Ourique, passando pelo copo de três no Val do-Rio e olhando os guindastes no Porto de Lisboa, Pessoa rompia a identidade da voz poética.
E a dúvida ficou, o chão que treme por baixo dos pés dos actores, a necessidade de contar uma história, a impossibilidade de a contar na forma que tínhamos para a moldar, já que a vida é maior do que a escrita, a realidade impede a forma, tudo explode e o homem se dividiu, estilhaçado – pois o que em nós sente, está pensando... – o passado irrompe no presente, amaldiçoando-o, retirando-lhe tapetes e tábuas...
O que foi este veneno que, desde aqueles anos 20 de entre as duas Guerras, nos ministrou Pirandello, o siciliano, como se fosse um licor apenas, o que foi esta dúvida, que não nos livramos dela, e com ela entramos na “era da suspeita”?
Que maldição, que poesia instalou ele nos velhos palcos do teatro (e ainda os há, velhos palcos?) para, pela derradeira (e sempre recomeçada) vez, podermos convocar fantasmas e melodramas, dramalhões impossíveis e vícios secretos, para vermos agonizar, entre gemidos, a odiada burguesia, a família sufocante, estrangulada, enredada na sua esterilidade?
Confesso: Seis Personagens à Procura de Autor é uma das muito poucas peças que, tendo já visto feitas e extraordinariamente (a encenação de Klaus Michael Grüber de 1981, na Freie Volksbuhne de Berlim, com cenografia de Titina Maselli, será um dos três, quatro mais belos espectáculos que vi), sempre quis fazer. Pois sempre me quis meter neste novelo, enredar-me nesta cama de gato.
Pirandello conta que tudo começou em 1910, quando lhe bateu à porta da fantasia a tragédia destas personagens. E pensou contar-lhes a história, escrever um romance. Em 1917, ainda não a consegue formalizar. E escreve numa carta “Seis Personagens, metidas num drama tremendo que chegam até mim para eu as meter num romance. São uma obsessão. E eu digo-lhes que não, que não quero saber delas. E elas que me mostram todas as suas feridas, e eu que as ponho na rua.” Em 1911, num conto, Tragédia de uma personagem, chega-se ao Autor uma delas, o Doutor Fileno. Que lhe pede que escreva a sua queda, que lhe dê vida. E usa argumentação que há-de surgir na boca do Pai, quando Pirandello, em 1921, ousa finalmente escrever mas agora para um palco, a impossível tragédia. E não há-de parar aí; em 1924, escreve um ensaio-prefácio onde revela o processo de criação; e quando dirige a peça, em 1925, para o seu Teatro d´Arte (e para Marta Abba, a actriz), reescreve o texto inserindo muitas das alterações, sugestões, variantes que vira nas produções que entretanto se fizeram da peça pelo mundo inteiro (e principalmente em Paris, 1923 – pelos Pitoeff – e Berlim, 1924 – por Max Rheinhardt).
E nós voltamos assim com ela aos anos em que o positivismo começou a tremer, o naturalismo se pôs a andar às arrecuas. Com o jovem Brecht que sempre perseguiremos, com este funâmbulo Pirandello de todos os arabescos, com tantos que nos lançaram o teatro para dentro destes nossos anos inseguros. Sem nos amparar na ilusão, sem nos acomodar ao já visto.
É bom, de vez em quando, voltar atrás.
E eu ando encantado, neste 2009, a reencontrar Pirandello, a perder-me nos seus silogismos, fulgurantes uns, apenas decorativos outros, farto que ando de me dizerem, nestes anos de recessão estética, que o que devemos é contar histórias daquelas com meio, fim e contracena, que é possível, voltar a fazer retratos e paisagens, agradar ao mercado, que no teatro devemos televisão, restaurando aquele mundo (injusto, não o esqueçamos) que há tempos já foi abaixo.
É com espanto que Pirandello vê o mundo cair, a burguesia e a sua imagem: e nada pode fazer a não ser desconfiar.
E que fazer com esta dúvida, que fazer? Talvez seja a mais duradoura das questões que o pirotécnico Pirandello ainda nos lança, 90 anos depois, casquinando: que fazer com a dor, a tremenda dor da existência?
Talvez por isso, as Seis Personagens andem ainda por aí, à procura. À nossa procura?
E já se sabe que não há escrita que lhes valha."
SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL
SEIS PERSONAGENS
À PROCURA DE AUTOR
ARTISTAS UNIDOS
SET ~ OUT O9
posted by luis Segunda-feira, Outubro 12, 2009
Quinta-feira, Outubro 08, 2009
1. Duas das boas notícias da última semana, no chanatas, Casa da Achada e drama.
2. Os últimos quatro livros sobre os quais Pedro Mexia escreveu e referiu no jornal público são livros editados por uma mesma editora, a quetzal.
Ponto.
De que é que se fala no tal governo sombra de que faz parte?3. A Relógio D`Água editou recentemente dois livros cujos prefácios ou notas introdutórias foram escritos por Ana Teresa Pereira, que dispensa apresentações.
Todavia, no ao Que o Diabo Leve a Mosca Azul, de John Franklin Bardin, diz respeito as espécies de recensões ou de artigos que li nenhuma faz referência às palavras de Ana Teresa, o que é um mistério, se os autores já não falam uns dos outros se não aparecem ao lado uns dos outros agora parece que os escribas dos jornais e revistas também já consideram irrelevantes os prefácios e as notas introdutórias e assim.
Também no Público, houve um tempo em que pudemos ler as também maravilhosas crónicas de Ana Teresa Pereira.
4. Esta chamaram-me a atenção, dando-me as fotocópias: Expresso, Actual, #1919, 8 de Agosto de 2009: o jornalista, suponho e até espero, Vasco Baptista Marques, escreve isto, só o primeiro ponto e depois o último ponto, sobre Os Limites do Controlo, de Jim Jarmusch:
"Custa dizê-lo, mas é verdade: bem espremidinho o novo filme de Jim Jarmusch (cineasta de altos e baixos que nos habituámos a estimar desde a primeira hora) não chega sequer para encher meio copo de sumo de laranja", "Custa dizê-lo, mas é verdade: chega a ser constrangedor."
Convinha que quem escreveu estas palavras, e das que faltam aqui, que ainda são piores, visse assim mais filmes, porque o que disse é revelador do que ainda lhe falta ver para poder dizer ou escrever algo sobre cinema, fez-me lembrar algumas pessoas que ouvi quando fui pela primeira e única vez para perto do douro ver aqueles aviões que só se vêem na tv e que já havia quem discutisse o que era preciso fazer para ganhar como se tivessem estado sentados o ano inteiro junto ao rio mirando as nuvens.
Deixo aqui dois fotogramas de outros filmes que poderá ver também nos Limites do Controlo, para não dizer as asneiras que disse sobre meia dúzia de citações e de dois ou três gags eruditos, e olhe: os fotogramas não são de Godard nem de Melville:
5. Não sei como é que as televisões portuguesas, algumas até dão notícias 24 ou mais horas por dia, deixam passar quase em branco as Assembleias Gerais da ONU.
O que é que querem de melhor?
De que é que precisam para passar a ter alguma qualidade?
6. Para os mais esquecidos talvez fosse bom reverem o jogo Dinamarca-Suécia, do Euro 2004, jogado em alvalade, para se deixarem de ideias e aprenderem a encher balões.
posted by luis Quinta-feira, Outubro 08, 2009




































